Elio: o menino que queria ser abduzido. Tem uma coisa que a Pixar sabe fazer melhor do que qualquer outro estúdio: pegar um conceito absurdo e transformá-lo em algo que te faz engolir seco na poltrona do cinema.
Elio começa com uma premissa que soa quase cômica — um garoto de 11 anos é confundido com o embaixador da Terra por uma federação intergaláctica — e usa isso para contar uma história bem mais íntima do que parece.
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Do que se trata Elio?
Elio Solis cresceu obcecado com espaço. Depois de perder os pais, foi morar com a tia Olga, major da Força Aérea americana, numa base militar onde todo mundo veste o mesmo uniforme bege. Elio, colorido e excêntrico, não se encaixa em lugar nenhum. O que ele mais quer é ser abduzido por alienígenas.
O universo, numa noite, ouve o pedido dele. Uma nave o suga para dentro do Communiverse — uma espécie de ONU intergaláctica com representantes de galáxias inteiras. Lá dentro, por uma confusão, os habitantes convencem-se de que ele é o líder da Terra. Elio não corrige o mal-entendido de imediato. Afinal, finalmente alguém o levou a sério.
O problema? Um senhor da guerra chamado Grigon quer entrar no Communiverse e está usando o “embaixador humano” como peça de barganha. Elio precisa resolver uma crise diplomática galáctica sem que ninguém descubra que ele é, na verdade, só um menino que dormia mal pensando em OVNIs.
Os personagens principais
Elio (voz de Yonas Kibreab) é o tipo de criança que as outras crianças não entendem e os adultos acham “difícil”. Tem imaginação fora do padrão, é apaixonado por astronomia e carrega uma solidão real por baixo da excentricidade.
Tia Olga (Zoe Saldaña) abriu mão de virar astronauta para criar o sobrinho. É brilhante, dedicada e vive tentando se conectar com um garoto que parece falar outro idioma. O papel foi reformulado durante a produção — antes seria a mãe de Elio, e America Ferrera chegou a ser escalada. Saldaña entrou no projeto já com a personagem redesenhada como tia, e trouxe uma vulnerabilidade bem dosada.
Glordon (Remy Edgerly) é o filho do vilão Grigon — uma criatura que parece saída de um microscópio eletrônico, inspirada em tardígrados e insetos larvais. Sem olhos, mas com expressividade absurda. É o primeiro amigo de verdade de Elio, e é exatamente por isso que a relação entre eles funciona tão bem.
OOOOO (Shirley Henderson) é um supercomputador líquido que muda de forma. A equipe de efeitos precisou definir sua fluidez através de testes em animação 2D antes de modelar o personagem em 3D.

A produção: troca de diretores, crise criativa e inovação técnica
O filme foi anunciado em setembro de 2022 com Adrian Molina na direção — o mesmo co-diretor de Coco. A ideia original era autobiográfica: Molina cresceu em base militar e quis contar sobre isolamento social na infância. Em 2024, por divergências criativas, ele deixou o projeto e foi trabalhar no Coco 2. Madeline Sharafian e Domee Shi assumiram o comando.
Do ponto de vista técnico, o estúdio criou um processo interno chamado “College Project” para construir o visual do Communiverse. A produção usou uma lente anamórfica virtual — uma decisão incomum para animação — e estreou o Luna, novo sistema de iluminação da Pixar que permite definir luz e câmera ao mesmo tempo, acelerando decisões estéticas no início da produção. O resultado é um espaço sideral que não tem nada de sombrio: quatro discos orbitando com biomas diferentes — floresta, tundra, ambiente aquático e lava — dentro de uma estrutura paraboloide luminosa.
A polêmica que ninguém ignorou
Em junho de 2025, múltiplas fontes dentro da Pixar contaram ao Hollywood Reporter que Elio foi originalmente concebido como um personagem queer-coded — com interesse em moda, ambientalismo e uma identidade mais fluida. À medida que a produção avançou, executivos da Pixar pressionaram para torná-lo “mais masculino”. As referências a esse lado do personagem foram removidas, inclusive após a troca de diretores.
Um funcionário descreveu a mudança como destruidora de um trabalho bonito. Outro disse que a versão final é muito mais genérica em comparação com o que foi desenvolvido nos primeiros anos. É uma situação parecida com o que aconteceu com Inside Out 2, onde Riley foi originalmente escrita como bissexual.
O debate chegou ao público antes mesmo do filme entrar em cartaz, e criou um duplo olhar sobre o produto final: quem assiste sabendo do contexto enxerga lacunas deliberadas na construção do personagem.
O que a crítica achou

No Rotten Tomatoes, Elio fechou com 83% de aprovação da crítica e 89% do público. O consenso é que é uma animação visualmente espetacular com uma história emocionalmente honesta — mas que fica na margem segura da fórmula Pixar sem nunca arriscar de verdade. Quem esperava algo no nível de Divertida Mente ou Os Incríveis pode sair com a sensação de que faltou um segundo ato mais ousado.
Por outro lado, vários críticos elogiaram exatamente a leveza emocional do filme — sem a manipulação exagerada de alguns títulos recentes do estúdio. Para crianças pequenas, Elio entrega muito bem. Para adultos que foram crescidos pela Pixar, pode parecer familiar demais.
Bilheteria: US$ 154 milhões mundiais contra um orçamento estimado entre US$ 150 e 200 milhões. Não foi um fracasso, mas está longe do desempenho esperado para um original da Pixar.
Onde assistir Elio
O filme estreou nos cinemas em 20 de junho de 2025 e está disponível para aluguel e compra digital nas principais plataformas. A chegada ao Disney+ seguiu a janela padrão da Disney após exibição teatral.
Vale a pena assistir?
Se você tem filhos entre 5 e 12 anos: sim, sem hesitar. Glordon por si só já justifica o ingresso. Se você é adulto que quer uma animação que te tira do chão como Soul ou Viva — A Vida é uma Festa: Elio entrega emoção, mas com o freio de mão puxado. É um filme bonito sobre pertencimento e sobre aprender a amar quem você tem, não quem você imaginava ter. Funciona. Só não arrisca.
Imagem do topo: Rolling Stone Brasil

