O Que Vai Acontecer com o Irã Após a Morte de Khamenei

O Que Vai Acontecer com o Irã Após a Morte de Khamenei. 28 de fevereiro de 2026. Em poucas horas, a República Islâmica do Irã perdeu o único líder supremo que conheceu nos últimos 36 anos. Ali Khamenei, 86 anos, morreu em Teerã após um ataque coordenado por forças militares dos Estados Unidos e de Israel — a maior ofensiva contra o país desde a Revolução de 1979. Com ele, morreram sua filha, seu genro, seu neto, o ministro da Defesa Amir Nasirzadeh e o comandante da Guarda Revolucionária, Mohammad Pakpour.

A pergunta que agora circula em capitais do mundo todo é simples de formular e impossível de responder com certeza: o que vem a seguir?

Um Regime Construído para Sobreviver à Própria Cabeça

Quem esperava que a morte de Khamenei desintegrasse o regime em dias vai se decepcionar — pelo menos no curto prazo. O sistema iraniano não foi desenhado como uma ditadura personalista ao estilo de Muammar Gaddafi ou Saddam Hussein, onde o colapso do líder equivale ao colapso da estrutura inteira. Ele foi arquitetado, desde Khomeini, para resistir exatamente a esse tipo de decapitação.

Já neste domingo, 1º de março, o Irã anunciou a formação de um Conselho de Liderança Interina, composto pelo presidente Masoud Pezeshkian, pelo chefe do Judiciário Gholam Hossein Mohseni Ejeie, pelo presidente do Parlamento Mohammad Bagher Ghalibaf e pelo aiatolá Alireza Arafi, representando o Conselho dos Guardiões. Esse colegiado assume as funções de Khamenei enquanto a Assembleia dos Especialistas — os 88 clérigos constitucionalmente responsáveis pela escolha do líder supremo — delibera sobre quem ocupará o cargo de forma permanente.

A mecânica da sucessão não é nova: foi usada em 1989, quando Khomeini morreu. Naquela ocasião, a Assembleia dos Especialistas elegeu o próprio Khamenei em sessão de emergência, mesmo ele não possuindo o grau religioso formalmente exigido pela Constituição. Para viabilizar a escolha, a Constituição foi alterada às pressas. O regime já demonstrou que sabe dobrar suas próprias regras quando necessário.

Os Nomes na Mesa — e os Problemas de Cada Um

O candidato mais cotado nas últimas horas é Mojtaba Khamenei, 56 anos, segundo filho do aiatolá morto. Mojtaba construiu décadas de influência dentro da Guarda Revolucionária Islâmica e tem acesso direto às redes de poder que seu pai controlava. O problema é óbvio: a sucessão hereditária é mal vista no clero xiita. Uma liderança religiosa passada de pai para filho evoca o que a Revolução de 1979 prometeu destruir — a monarquia.

Alireza Arafi, 67 anos, é um clérigo consagrado que já integrou o Conselho dos Guardiões e chefia o sistema de seminários do Irã. Tem confiança do regime, mas pouca visibilidade política e nenhuma ligação documentada com o aparato militar — o que, num momento de guerra aberta, pode ser uma fraqueza fatal.

Hashem Hosseini Bushehri, perto dos 70 anos, é vice-presidente da Assembleia de Especialistas e mantém perfil discreto. Conhecido nos bastidores, desconhecido nas ruas.

Mohammad Mehdi Mirbagheri, clérigo linha-dura e membro da Assembleia de Especialistas, representa a ala que não aceita qualquer abertura — seja para reformistas internos, seja para negociação com Washington.

Nenhum desses nomes tem o peso que Khamenei acumulou ao longo de mais de três décadas. Isso importa: o cargo de líder supremo depende tanto de legitimidade religiosa quanto de autoridade política construída no tempo. Escolher alguém novo é iniciar um período inevitável de consolidação de poder — e durante essa consolidação, o regime será mais vulnerável do que nos últimos 36 anos.

A Guarda Revolucionária Decide Tudo

Há uma variável que supera qualquer nome de clérigo na disputa: a Guarda Revolucionária Islâmica, o IRGC. Com um orçamento autônomo, forças próprias, empresas, influência sobre a mídia e controle de boa parte da infraestrutura de segurança do país, a Guarda não é apenas um braço armado do regime — é, na prática, seu esqueleto.

Fontes da inteligência americana, citadas pela CNN antes do ataque, já projetavam que qualquer vácuo de poder seria preenchido pelos generais da Guarda antes que qualquer clérigo pudesse articular uma candidatura. Com Pakpour morto no mesmo ataque que matou Khamenei, há agora também uma disputa interna pela liderança do próprio IRGC.

Se Mojtaba Khamenei conseguir o apoio explícito dos principais generais da Guarda nas próximas semanas, ele terá a chave do cofre independentemente da aprovação da Assembleia dos Especialistas. Se a Guarda se dividir em facções rivais, o Irã entrará em território muito mais instável.

As Ruas, os Protestos e a Variável Que Ninguém Controla

Entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, o Irã viveu um dos períodos mais violentos de sua história recente. Protestos de larga escala terminaram com milhares de mortos. A crise econômica — inflação galopante, sanções que estrangularam a classe média, desemprego entre jovens — já havia produzido ondas de protestos em 2017, 2019, 2022 e 2025. Cada vez, o regime respondeu com repressão e sobreviveu.

O Que Vai Acontecer com o Irã Após a Morte de Khamenei
O Que Vai Acontecer com o Irã Após a Morte de Khamenei – Imagem: Folha UOL

A diferença agora é que a morte de Khamenei coincide com a desarticulação de boa parte da liderança militar e com uma guerra em andamento. A população iraniana não é monolítica: há quem queira a queda do regime, há quem tenha saído às ruas para lamentar a morte do aiatolá. Holly Dagres, pesquisadora do Washington Institute, resume bem: “Muitos iranianos querem que a República Islâmica termine. Mas a maioria não quer que isso aconteça às custas de sangue e guerra.”

Reza Pahlavi, filho do xá deposto em 1979 e principal figura de oposição no exílio, vem tentando se posicionar como alternativa para uma transição democrática secular. Mas a oposição fora do Irã é fragmentada, sem estrutura para mobilizar uma transição. E dentro do país, líderes de oposição estão presos ou exilados.

O Cálculo de Trump — e o Modelo Venezuelano

O presidente Donald Trump afirmou ter “um nome em mente” para a liderança iraniana, sem dar detalhes. Qualquer tentativa americana de impor um sucessor vai colidir com a memória histórica do Irã: foi exatamente o apoio dos EUA ao xá que catalisou a Revolução de 1979. Um líder percebido como fantoche de Washington teria legitimidade zero dentro do país.

O analista Ali Alfoneh, do Atlantic Council, aponta para o que chama de resolução “à la Venezuela”: a República Islâmica poderia oferecer concessões econômicas aos EUA — acesso de empresas petrolíferas americanas ao mercado iraniano, compra de aviões da Boeing — em troca de sobrevivência do regime sob nova liderança. A teocracia se mantém; a política externa enrijece; os negócios fluem. Não é uma abertura democrática. É uma acomodação de interesses.

O Que Realmente Está em Jogo

A morte de Khamenei encerra 36 anos de uma liderança que construiu um Estado capaz de sobreviver a sanções, guerras por procuração, ataques diretos a aliados e ondas sucessivas de protestos internos. Mas o regime que ele deixa não é o mesmo de 1989: está economicamente exausto, militarmente fragilizado — o Hamas foi destruído em Gaza, o Hezbollah enfraquecido no Líbano, os houthis sob pressão contínua —, e agora enfrenta a maior crise institucional de sua história no pior momento possível.

O futuro do Irã não vai ser decidido nos próximos dias, mas nas disputas internas das próximas semanas entre clérigos, generais e facções do regime que por décadas operaram à sombra de um único homem. Se o regime conseguir apresentar um novo líder com apoio da Guarda Revolucionária e legitimidade suficiente no clero, ele sobreviverá. Se a Guarda se dividir, o vácuo pode ser maior do que qualquer bomba conseguiu criar.

Uma coisa é quase certa: o Irã pós-Khamenei não vai se parecer com nenhum dos cenários que os analistas tinham imaginado antes de 28 de fevereiro de 2026.

Imagem do topo: G1

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