Quatro Ondas de Frio em Dois Meses: Por Que Cientistas Estão Mais Preocupados do Que Parecem

Quatro Ondas de Frio em Dois Meses. O Brasil registrou quatro ondas de frio apenas entre maio e julho de 2025. Temperaturas negativas varreram o Sul, neve caiu em São Joaquim, geadas queimaram lavouras no Centro-Oeste.

Para quem ouve falar tanto em aquecimento global, esse cenário parece contraditório. Mas é justamente aí que mora o problema que está tirando o sono de climatologistas.

O Paradoxo Que Confunde

Emilio Lèbre La Rovere, membro do IPCC e professor da UFRJ, explicou que a diferença entre uma era glacial e o período atual é apenas 6°C em temperatura média global. Com o planeta já 1,4°C mais quente, estamos a um quarto do caminho em direção a reconfiguração climática completa.

Mas então por que termômetros marcam temperaturas cada vez mais baixas? A resposta: mais energia no sistema climático significa extremos violentos em ambas direções.

Stefan Rahmstorf, do Instituto Potsdam, documenta que o Ártico aqueceu três vezes mais rápido que a média global nos últimos 40 anos. Esse aquecimento desarranja o vórtice polar – massa giratória de ar frio normalmente confinada perto do Polo Norte.

A Corrente de Jato Embriagada

Imagine uma cerca invisível de ventos fortíssimos circulando o planeta a 10 quilômetros de altitude. Essa é a corrente de jato, cuja função é manter ar polar frio no norte.

Quando o Ártico esquenta, a diferença de temperatura entre polo e trópicos diminui. A corrente perde força e ondula como cobra bêbada. Essas ondulações permitem que bolsões de ar ártico escapem para o sul.

Foi isso que causou tempestade de neve histórica no Texas em 2021, matando centenas. O mesmo mecanismo explica por que Curitiba registrou 2°C-4°C em maio de 2025 – temperaturas que quebraram recordes estabelecidos décadas atrás.

Jennifer Francis, do Woodwell Climate Research Center, publicou em 2012 o artigo que conectou aquecimento ártico com ondas de frio intensas. Seu trabalho gerou debates, mas pesquisas subsequentes confirmaram: aquecimento global pode causar invernos mais selvagens.

Jennifer Francis, do Woodwell Climate Research Center, publicou em 2012 o artigo que primeiro conectou aquecimento ártico com ondas de frio mais intensas em latitudes médias. Seu trabalho gerou debates acalorados, mas pesquisas subsequentes confirmaram o padrão: sim, o aquecimento global pode causar invernos mais selvagens e imprevisíveis.

Atenção Primária

Brasil: Laboratório de Extremos

Alexandre Nascimento, da Nottus Meteorologia, apontou que 2025 marca mudança significativa. Sem El Niño aquecendo os invernos, o país voltou a experimentar frio amplificado.

A primeira onda chegou em maio com força inédita. Porto Alegre viu 7°C-9°C contra recorde anterior de 9,2°C. Cuiabá marcou 11°C-13°C versus 19°C. São Paulo ficou entre 8°C-10°C.

Junho trouxe segunda e terceira ondas quebrando novos recordes antes de normalização. Julho começou com quarta onda atingindo Sul, Acre e sul do Amazonas.

O padrão preocupa porque não dá recuperação. Agricultores no Rio Grande do Sul plantaram sob geadas repetidas. Mais de mil cabeças de gado morreram em Mato Grosso do Sul durante onda de 2023, prejuízo de R$ 3 milhões.

A Matemática Dos Modelos Climáticos

Michael E. Mann, da Penn State, admite que modelos acertam tendências gerais mas falham em prever intensidade de extremos. O problema é resolução computacional – prever onda específica em cidade específica exige poder de processamento inexistente.

Cientistas propuseram organização internacional semelhante ao CERN dedicada à modelagem climática. Enquanto isso, meteorologistas trabalham com margens de erro consideráveis. Previsões de uma semana frequentemente subestimam o frio real.

Quando o Sistema Climático Trava

As ondas de frio de 2025 compartilham característica preocupante: bloqueios atmosféricos prolongados. Sistemas de alta pressão estacionam sobre regiões e não se movem por dias.

Durante bloqueios, frentes frias não penetram. Ar frio fica aprisionado, acumulando mais frio noite após noite. Eventos de 2-3 dias se transformam em ondas de 5-7 dias.

Climatempo documentou que várias áreas do centro-sul não aqueceram entre as ondas de maio, junho e julho. Regiões permaneceram geladas por semanas. Brasil registrou cinco ondas de calor em 2023, três chuvas intensas, uma seca – eventos sem precedentes que forçaram alertas da ONU.

Saúde Pública no Limite

Quatro Ondas de Frio em Dois Meses
CNN Brasil

Dados do INMET mostram dezenas de episódios de frio histórico em anos recentes. Thales Machado, da Conectas Direitos Humanos, destaca que impactos recaem desproporcionalmente sobre populações vulneráveis.

Pessoas em situação de rua morrem durante ondas de frio. Idosos com doenças respiratórias lotam hospitais. Crianças em comunidades sem infraestrutura adequada desenvolvem pneumonia. Trabalhadores rurais enfrentam jornadas em condições perigosas.

Algumas cidades brasileiras implementaram alertas via SMS quando ondas se aproximam e abriram abrigos climatizados. Mas a resposta ainda é fragmentada e insuficiente comparada à escala crescente do problema enfrentado.

O Futuro Não Escrito

Lincoln Muniz Alves, do INPE, documenta aumento gradual de ondas de calor nas últimas décadas em quase todo Brasil. Para o frio, o padrão é mais complexo – não necessariamente mais ondas, mas ondas mais intensas quando ocorrem.

Previsões indicam temperaturas normais em grande parte do país para final de julho. Mas climatologistas esperam pelo menos mais uma onda significativa entre final de julho e agosto.

A previsão de longo prazo do IPCC é clara: eventos extremos ocorrerão 40 vezes mais frequentemente do que em cenário sem interferência humana. Ondas de frio serão menos comuns, mas quando acontecerem, serão devastadoras.

Brasil está literalmente no meio do furacão climático. Posicionado em zona de transição entre trópicos e latitudes médias, o país sente impactos amplificados de desarranjos atmosféricos globais. As quatro ondas de frio em dois meses são sintoma, não anomalia.

Imagem do topo: Meteored

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