Todos os animes que já foram ao Oscar. Dois venceram. Oito chegaram à indicação. Todos vieram do mesmo país. Nenhum veio do estúdio que domina a categoria há duas décadas.
Atualizado: março de 2026 · Leitura: ~7 minutos
No último domingo (15/03), Guerreiras do K-pop fez história ao vencer o Oscar 2026 nas categorias Animação e Canção Original. A Academia criou a categoria de Melhor Animação em 2002. Nos 23 anos que se passaram desde então, filmes japoneses apareceram 11 vezes na lista de indicados. Ganharam três. E duas dessas vitórias foram do mesmo diretor — o que diz algo tanto sobre Hayao Miyazaki quanto sobre como a Academia enxerga tudo que não é feito em Los Angeles.
Esta é a história completa, em ordem cronológica, de cada anime que sentou à mesa do Oscar.
3 vencedores · 11 indicações totais · 1 diretor por trás de dois dos vencedores.
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Os 11 momentos do anime no Oscar
2003 — 75ª cerimônia – A Viagem de Chihiro ★ VENCEDOR

Direção: Hayao Miyazaki · Studio Ghibli
O primeiro anime a ganhar o Oscar de Melhor Animação. Derrotou quatro filmes americanos: A Era do Gelo, Lilo & Stitch, Spirit: O Corcel Indomável e O Planeta do Tesouro. Foi a primeira animação em língua estrangeira a vencer a categoria. Miyazaki recusou o convite para a cerimônia em protesto contra a invasão americana ao Iraque, que havia começado quatro dias antes. O filme faturou mais de US$ 347 milhões e, no Japão, ficou quase duas décadas como a maior bilheteria da história do país — recorde superado apenas por Demon Slayer em 2020.
2006 — 78ª cerimônia – O Castelo Animado

Indicado Direção: Hayao Miyazaki · Studio Ghibli
Segunda indicação do Ghibli, também com Miyazaki. A história de Sophie, transformada em velha por uma bruxa e abrigada no castelo do feiticeiro Howl, perdeu para Wallace & Gromit: A Batalha dos Vegetais. Baseado no romance britânico de Diana Wynne Jones, o filme explorou, nas entrelinhas, a crítica à guerra — feita durante o período em que Miyazaki acompanhava, visivelmente perturbado, a invasão ao Iraque. Outro candidato na mesma categoria foi Corpse Bride, de Tim Burton.
2014 — 86ª cerimônia – Vidas ao Vento

Indicado Direção: Hayao Miyazaki · Studio Ghibli
Terceira indicação de Miyazaki, e a mais pessoal. Um filme sobre Jiro Horikoshi, engenheiro real que projetou os aviões de combate japoneses na Segunda Guerra — incluindo o Zero, símbolo da aviação imperial. Miyazaki não faz apologia à guerra, mas tampouco condena seu protagonista. O filme perdeu para Frozen: Uma Aventura Congelante, que arrasou nas bilheterias do ano. A escolha do tema e o tom ambíguo de Vidas ao Vento geraram mais debate no Japão do que o Oscar em si.
2015 — 87ª cerimônia – O Conto da Princesa Kaguya

Indicado Direção: Isao Takahata · Studio Ghibli
Primeira indicação do Ghibli com um filme que não foi de Miyazaki. Isao Takahata, cofundador do estúdio, recontou a lenda japonesa do século X sobre uma menina nascida de um bambu. A animação usou traços que pareciam esboços inacabados — uma escolha deliberada para evocar a tradição da pintura japonesa em nanquim. Perdeu para DivertidaMente, da Pixar. Takahata faleceu em 2018, aos 82 anos, sem nunca ter levado a estatueta.
2015 — 87ª cerimônia – As Memórias de Marnie

Indicado Direção: Hiromasa Yonebayashi · Studio Ghibli
Dois filmes do Ghibli indicados no mesmo ano — algo que nunca havia acontecido antes. Yonebayashi havia dirigido A Viagem de Arietty e aqui adaptou o romance britânico de Joan G. Robinson. A história de Anna e sua amizade com a misteriosa Marnie explora solidão e identidade com uma sutileza rara. Também perdeu para DivertidaMente. Foi o último filme que o Studio Ghibli lançou antes de entrar em hiato após a “aposentadoria” de Miyazaki em 2013.
2017 — 89ª cerimônia – A Tartaruga Vermelha

Indicado | Coprodução Ghibli Direção: Michaël Dudok de Wit · Studio Ghibli / Wild Bunch
Tecnicamente não é um anime puro — é uma coprodução franco-belga-japonesa. Mas o Ghibli está na produção e o traço carrega influências claras da escola de animação do estúdio. Um filme sem diálogos sobre um náufrago numa ilha deserta. Perdeu para Zootopia, da Disney. Ganhou o prêmio especial do júri em Cannes, que costuma significar que os críticos adoraram mas o grande prêmio foi para outro.
2019 — 91ª cerimônia – Mirai do Futuro

Indicado | Primeiro não-Ghibli Direção: Mamoru Hosoda · Studio Chizu
Marco importante: o primeiro anime indicado ao Oscar que não saiu do Studio Ghibli. Mamoru Hosoda chegou à Academia com uma história íntima sobre um menino de quatro anos que descobre um jardim mágico onde encontra familiares de outras épocas. O filme estreou na Quinzena dos Realizadores em Cannes. Perdeu para Homem-Aranha: No Aranhaverso, que ganhou por unanimidade. Hosoda disse em entrevista que ficou surpreso com a indicação — e que lamentava a morte do anime desenhado à mão, empurrado para o canto pela animação por computador.
2022 — 94ª cerimônia – Flee

Indicado em 3 categorias simultâneas – Direção: Jonas Poher Rasmussen · Dinamarca/França/Noruega/Suécia
Flee não é anime, mas merece menção por razões históricas: foi o único filme a ser indicado simultaneamente ao Oscar de Melhor Documentário, Melhor Filme Internacional e Melhor Animação. Um feito sem precedente na história da Academia. É um documentário animado sobre um refugiado afegão — a animação foi usada para proteger a identidade do protagonista. Perdeu Melhor Animação para Encanto.
2023 — 95ª cerimônia – Inu-Oh

Pré-selecionado – Direção: Masaaki Yuasa · Science SARU
Masaaki Yuasa — responsável por Ping Pong: The Animation e Lu Over the Wall — chegou perto da indicação com Inu-Oh, uma história sobre um cantor de Noh medieval transformado em rock star. O filme foi pré-selecionado pela Academia mas não chegou à lista final de cinco. A música está no centro do enredo, composta como se fosse um musical de arena. Uma das animações japonesas mais ambiciosas sonoramente lançadas nos últimos anos — e uma das menos discutidas fora do circuito de festivais.
2024 — 96ª cerimônia – O Menino e a Garça ★ VENCEDOR

Direção: Hayao Miyazaki · Studio Ghibli
Segundo anime a ganhar o Oscar de Melhor Animação, vinte e um anos depois de Chihiro. Miyazaki havia “se aposentado” em 2013 e voltou depois de quatro anos de silêncio para passar sete anos produzindo esse filme. Derrotou Homem-Aranha: Através do Aranhaverso, que muitos consideravam favorito — o que gerou reação pública de parte do elenco do filme americano. Ganhou também o Globo de Ouro e o BAFTA na mesma temporada. Miyazaki tinha 82 anos na cerimônia.
2026 – 98ª cerimônia – Guerreiras do K-pop ★ VENCEDOR

Direção: Maggie Kang, Chris Appelhans · Netflix; Sony Pictures Animation
Guerreiras do K‑Pop tornou-se a primeira grande animação de streaming da Netflix a vencer o Oscar de Melhor Animação, consolidando um fenômeno cultural que já vinha dominando a temporada de prêmios. O filme acompanha um trio fictício de idols que também caçam demônios e se transformou no longa mais assistido da história da plataforma. A produção já havia conquistado o Golden Globe Awards e o Critics Choice Awards na mesma categoria, além de vitórias no Annie Awards. Sua música “Golden” também virou fenômeno global e ganhou um Grammy Awards, tornando a premiação do Oscar o ponto final de uma das campanhas mais dominantes já vistas para uma animação.
O padrão que ninguém comenta
Olhando a lista completa, um detalhe chama atenção que vai além do domínio de Miyazaki: todos os animes que chegaram à indicação são filmes. Nenhuma série. Nenhum OVA. Nenhum filme de franquia de shonen — sem Naruto, sem Dragon Ball, sem Demon Slayer no Oscar.
Isso não é acidente. A Academia historicamente privilegia animações que funcionam como cinema de autor — com identidade visual própria, narrativa não-linear ou temática que ultrapasse o entretenimento de gênero. O Castelo Animado cabe nesse molde. Vidas ao Vento também. Mirai do Futuro, com toda a sua intimidade doméstica, também.
Demon Slayer: Mugen Train faturou mais de US$ 490 milhões mundialmente em 2020 e se tornou o filme mais assistido da história do Japão. A Academia nem sequer o pré-selecionou.
A questão não é qualidade — Mugen Train é tecnicamente impecável. A questão é que a Academia trata animação japonesa como arte contemplativa quando a prefere, e ignora quando é entretenimento de massa. Miyazaki passou pelos dois filtros porque seus filmes são simultaneamente populares e poéticos. Ninguém mais nesse mercado conseguiu essa combinação com consistência suficiente para dobrar Hollywood.
O que precisaria mudar
Para que outros animes entrem na corrida com regularidade, três coisas precisam acontecer: distribuição americana agressiva (sem ela, os filmes nem chegam a ser assistidos pelos votantes), elenco de voz em inglês reconhecível (que gera cobertura de imprensa), e um agente de Oscar — alguém na indústria americana fazendo campanha ativa. Miyazaki teve a Disney. Os outros, não.
Mamoru Hosoda está se aproximando. Sua produtora, Studio Chizu, tem agora acordos de distribuição mais sólidos no Ocidente. Belle chegou aos cinemas americanos com campanha razoável. Não foi indicado, mas foi falado. Isso já é diferente.

