Todos os Indicados ao Oscar 2026 de Melhor Animação — E Por Que Essa Disputa É Mais Interessante Do Que Parece

Todos os Indicados ao Oscar 2026 de Melhor Animação. O Oscar de Melhor Animação raramente é uma surpresa. Durante anos, a Academia funcionou como uma estação de aprovação automática para o maior sucesso de bilheteria da Disney ou da Pixar, com rara abertura para títulos independentes. Mas 2023 mudou alguma coisa. Guillermo del Toro’s Pinocchio ganhou. Flow, da Letônia, ganhou em 2025. A categoria começou a ter história própria.

A 98ª cerimônia, marcada para 15 de março de 2026 no Dolby Theatre em Hollywood, vai para essa disputa com cinco indicados que representam algo que raramente acontece na categoria: um blockbuster de US$ 1,7 bilhão disputando espaço com uma animação francesa de US$ 938 mil de bilheteria nos Estados Unidos. Esse gap de escala não nega nenhum dos filmes — diz que a Academia está prestando atenção em coisas diferentes ao mesmo tempo.

Aqui está o que você precisa saber sobre cada um dos cinco indicados.

Zootopia 2 — Walt Disney Animation Studios

Todos os Indicados ao Oscar 2026 de Melhor Animação – Imagem: Ingresso . com

Se você não tinha certeza de que Zootopia 2 era um fenômeno cultural, o número resolve a dúvida: US$ 1,27 bilhão de bilheteria global em menos de quatro semanas. A maior animação de Hollywood de 2025, superando até o remake de Lilo & Stitch, e a segunda maior bilheteria de Hollywood do ano no geral.

A sequência passa-se uma semana após o primeiro filme. Judy Hopps e Nick Wilde são agora parceiros de polícia — mas parceiros que mal se suportam profissionalmente. Um novo caso envolvendo Gary A’Cobra, o primeiro réptil a aparecer em Zootopia em décadas, os arrasta para partes desconhecidas da cidade e para uma conspiração que reescreve a história do lugar. O roteiro de Jared Bush e Byron Howard, que dirigiram o original, faz algo que as melhores sequências sabem fazer: não replica o arco emocional do primeiro filme, usa o que já foi construído para contar uma história diferente.

A crítica foi mais entusiasmada do que cética. O Rotten Tomatoes fechou em 91%. O IMDB em 7.4. Quem esperava uma continuação segura e preguiçosa foi surpreendido por um thriller policial de animal-noir que tem reviravoltas reais e expande Zootopia geograficamente de um jeito que o primeiro não precisou fazer.

A vitória aqui seria histórica pelo motivo errado e pelo motivo certo ao mesmo tempo: nenhum filme de animação com essa bilheteria ganhou o Oscar sem ter também a aprovação crítica consistente que Zootopia 2 tem. Mas o tamanho financeiro pode trabalhar contra ele — a Academia às vezes sente que filmes enormes já ganharam o suficiente.

Onde assistir: Disney+.

Guerreiras do K-Pop (KPop Demon Hunters) — Netflix / Sony Pictures Animation

Rolling Stone Brasil

Esse é o favorito, e os números de premiação explicam por quê. Antes do Oscar, Guerreiras do K-Pop já havia levado o Globo de Ouro de Melhor Animação, o Critics Choice Award, e varrido o Annie Awards — considerado o Oscar da animação — em praticamente todas as categorias relevantes: direção, escrita, personagens, efeitos visuais, design de produção, trilha, voice acting e edição. Isso não acontece com filmes medianos.

A produção da Sony Pictures Animation para a Netflix acompanha o girl group HUNTR/X — Rumi, Mira e Zoey — que é mundialmente famoso enquanto secretamente caça demônios. A ameaça nova é uma boy band rival que são, na verdade, demônios com agenda própria. A premissa soa como paródia e funcionaria bem como paródia, mas os diretores Maggie Kang e Chris Appelhans levaram a sério o universo visual do K-Pop e construíram uma animação que usa a estética dos videoclipes coreanos — cortes rápidos, paletas saturadas, coreografias geometricamente precisas — como linguagem cinematográfica, não como decoração.

A música “Dourado”, interpretada pelas vozes do grupo HUNTR/X do filme, chegou ao topo da Billboard e ganhou indicação adicional para Melhor Canção Original no mesmo Oscar. Não acontece toda hora uma animação ter impacto cultural fora das telas antes da cerimônia.

O único risco é o histórico da Academia com filmes da Netflix: há uma resistência difusa da velha guarda a premiar streaming sobre cinema. Mas Guerreiras do K-Pop fez exibição nos cinemas antes de ir para a plataforma, e o momento de prêmios é o mais forte da categoria.

Onde assistir: Netflix.

Elio — Pixar / Disney

Todos os Indicados ao Oscar 2026 de Melhor Animação -Imagem: Omelete

Elio é o caso mais complicado da categoria, e provavelmente o mais interessante de analisar.

O filme — sobre um menino de 11 anos que é confundido com o embaixador da Terra por uma organização interplanetária — foi um fracasso de bilheteria notável para a Pixar: US$ 154 milhões de arrecadação mundial contra um orçamento estimado de US$ 150 milhões, sem contar distribuição e marketing. Mas a crítica foi generosa: 82% no Rotten Tomatoes, nota “A” no CinemaScore, 83% de aprovação do público no PostTrak.

A diretora Domee Shi — que ganhou o Oscar de curta-metragem com Bao e dirigiu Red: Crescer é uma Fera — conduziu a parte final do projeto junto com Madeline Sharafian e Adrian Molina, que iniciou o projeto. A transição de direção durante a produção pode ter deixado marcas: vários críticos mencionaram que o segundo ato perde a coesão emocional que o início prometia. Um crítico americano usou a expressão “banalidade após a novidade passar” para descrever o meio do filme, e não estava errado.

O que Elio faz muito bem é visual. O Comuniverso, o reino interplanetário do filme, tem designs de criaturas que são genuinamente originais — incluindo personagens sem olhos, uma escolha que a Pixar raramente arriscaria — e a animação técnica é, segundo vários críticos, a melhor do estúdio em anos. O problema é que dificilmente vence o Oscar quem tem a animação mais bonita sem ter o filme mais sólido. A Pixar sabe disso melhor do que ninguém.

Onde assistir: Disney+.

Arco — Ugo Bienvenu / Neon / MountainA

Omelete

Arco é o azarão com a origem mais improvável da lista, e também aquele com a história de produção mais interessante de contar.

Ugo Bienvenu é um ilustrador e quadrinista francês que estudou na escola de animação Gobelins em Paris. Seu livro System Preference foi publicado em mais de dez países, incluindo EUA, Inglaterra e Canadá pela Penguin. O projeto de Arco começou em 2020, e durante três anos nenhuma produtora francesa quis financiá-lo — não entendiam os storyboards, achavam caro demais. Bienvenu e seu roteirista Félix de Givry usaram o dinheiro que tinham para criar um animático completo em preto-e-branco com trilha sonora. Isso chegou às mãos de Sophie Mas e Natalie Portman, da produtora MountainA. Em quatro meses o filme foi financiado. Em um ano e dois meses de animação com 250 pessoas, estava pronto.

O resultado estreou como screening especial em Cannes 2025, onde a Neon — distribuidora que também apostou em Flee, Robot Dreams e Anora antes do Oscar — adquiriu os direitos norte-americanos imediatamente. Críticos compararam o estilo visual ao Studio Ghibli e ao traço de quadrinhos europeus: linhas grossas de contorno, paisagens detalhadas com paleta sóbria, e uma abordagem que trata crianças como personagens com vida interior real, não como vetores de humor infantil.

A trama: Arco tem dez anos e vive em 2932, onde viagem no tempo é comum mas proibida para menores de doze. Ele rouba o manto arco-íris de sua irmã e viaja — e cai em 2075, um mundo em crise climática onde uma menina chamada Iris o ajuda a tentar voltar para casa. Não é um filme sobre ficção científica. É um filme sobre o peso de um futuro que as crianças de hoje vão herdar.

A bilheteria americana foi de US$ 938 mil — minúscula. Mas a Neon nunca apostou em escala para títulos como esse. Apostou em conversação. E Arco está sendo muito conversado.

Onde assistir: streaming a partir de 24 de fevereiro de 2026.

A Pequena Amélie ou a Personagem da Chuva (Little Amélie or the Character of Rain) — GKIDS / Ikki Films

Todos os Indicados ao Oscar 2026 de Melhor Animação – Imagem: Animation Magazine

De todos os cinco, esse é o mais difícil de classificar por gênero ou público. Baseado no romance Métaphysique des Tubes de Amélie Nothomb — escritora belga que tem uma das carreiras mais singulares da literatura europeia contemporânea —, o filme narra os dois primeiros anos de vida de Amélie, uma criança nascida no Japão que até os dois anos não demonstrava nenhuma resposta ao mundo externo. Os pais pensavam que havia algo gravemente errado. Então a avó lhe oferece um pedaço de chocolate branco belga, e Amélie desperta — para a linguagem, para a curiosidade, para a amizade com sua babá japonesa Nishio-san.

As diretoras Liane-Cho Han e Maïlys Vallade construíram uma animação que usa o choque cultural entre Bélgica e Japão como paleta visual: os tons frios e arquitetônicos europeus contra os detalhes orgânicos e coloridos do cotidiano japonês. A distribuição norte-americana ficou com a GKIDS, que distribui o Studio Ghibli nos EUA e é especialista em animações de arte — Wolfwalkers, The Breadwinner, Song of the Sea passaram por elas.

O filme ainda tem distribuição limitada no Brasil, sem previsão imediata de streaming nacional. Nos EUA, circulou em exibição limitada para qualificação de prêmios, sem estreia ampla. Esse é o tipo de filme que a maioria do público não vai ver antes do Oscar — mas que os membros da Academia que assistem a tudo vão lembrar especificamente.

A chance de vitória é menor que a de Guerreiras do K-Pop ou Zootopia 2, mas a indicação em si representa algo: é o segundo ano consecutivo em que um filme europeu de pequeno orçamento e altíssima densidade visual entra na corrida, depois de Flow vencer em 2025. A Academia está de olho nessa prateleira.

Onde assistir: exibição limitada em circuitos de arte; sem previsão para streaming no Brasil.

Quem Deve Ganhar

A lógica da temporada aponta para Guerreiras do K-Pop. O desempenho no Annie Awards é o sinal mais consistente que a indústria da animação tem, e Guerreiras do K-Pop não foi só competitiva — foi dominante. Globo de Ouro e Critics Choice confirmaram a mesma direção.

Mas Zootopia 2 arrecadou mais dinheiro em menos tempo do que quase qualquer animação da história, e isso tem um peso cultural real dentro da Academia. E Arco, com seu orçamento de poucos euros e o trajeto de Cannes até Hollywood inteiramente feito no braço, é o tipo de história que faz a Academia querer dar um troféu.

O que torna 2026 interessante é que nenhum dos cinco é um voto indefensável. Cada um tem um argumento sólido. Isso não acontecia nessa categoria faz tempo.

A cerimônia é em 15 de março. Até lá, tem muito filme para assistir.

Todos os Indicados ao Oscar 2026 de Melhor Animação

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