Magic: The Gathering na Netflix. O jogo de cartas mais influente da história está chegando à tela. Depois de três equipes criativas, dois recomeços do zero e um período em que todo mundo achava que tinha sido cancelada, a adaptação animada de Magic: The Gathering finalmente tem roteiros prontos, estúdio de animação confirmado e um showrunner com histórico de fazer séries de nicho virarem fenômeno.
Existe um tipo específico de adaptação que a Netflix consegue fazer bem quando acerta a mão: pegar uma propriedade intelectual enorme, complexa demais para a maioria das pessoas entender de onde começar, e transformá-la num ponto de entrada que funciona tanto para quem já conhece tudo quanto para quem nunca ouviu falar. Arcane fez isso com League of Legends. Castlevania fez com os games da Konami. A pergunta que o mercado faz desde 2019 é se Magic: The Gathering vai conseguir o mesmo — e tudo que sabemos até agora aponta que sim.
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Uma história que começou em 2019 e quase não sobreviveu
A trajetória desta série é, ela própria, mais dramática do que qualquer arco da ficção. Em junho de 2019, a Netflix anunciou que Joe e Anthony Russo — os mesmos diretores de Avengers: Infinity War e Endgame — produziriam uma série animada de Magic: The Gathering em parceria com a Wizards of the Coast. O anúncio movimentou a internet.
Os Russo saíram dois anos depois por divergências criativas sobre como adaptar o IP. Em agosto de 2021, Jeff Kline assumiu. Brandon Routh foi anunciado como voz de Gideon Jura, o personagem central daquela versão. A série prometia estrear em 2022. Não estreou. Em 2022, a produção sumiu completamente do radar da Netflix — sem comunicado, sem explicação. Em 2024, Brandon Routh disse numa entrevista que achava que a série tinha sido cancelada.
Então, em setembro de 2024, a Netflix anunciou um recomeço completo: nova equipe, nova direção, novo showrunner. E o nome escolhido mudou a percepção de todo mundo que estava acompanhando o projeto.
Terry Matalas e por que esse nome importa
A série está em produção sob direção do showrunner e produtor executivo Terry Matalas, responsável por Star Trek: Picard e 12 Monkeys, com o diretor supervisionante Patrick Osborne — vencedor do Oscar por animação — também a bordo.
Matalas não é um nome neutro dentro da comunidade de ficção científica. A terceira temporada de Star Trek: Picard, que ele comanda, virou referência de como ressuscitar uma série que estava agonizando: pegou personagens amados que tinham sido maltratados, construiu uma despedida à altura e converteu críticos que tinham abandonado o show. O que ele faz bem — e o que a série de Magic vai precisar exatamente — é equilibrar fanservice com história acessível para quem chega sem contexto.
Ele passou um tempo considerável consumindo o lore de Magic antes de escrever uma linha sequer, e foi o arco de Chandra Nalaar, a pyromancer, que lhe deu o ponto de entrada que precisava: um personagem com passado emocional suficiente para ancorar toda a mitologia do multiverso sem precisar explicar tudo de uma vez.
A estratégia não é nova — é exatamente o que Arcane fez — mas a execução é que vai determinar se funciona.
O que sabemos sobre a produção hoje
Em maio de 2025, Matalas confirmou que todos os roteiros da primeira temporada estão completos e que a produção avançou para a fase de casting e animatics — uma etapa intermediária entre o storyboard e a animação final.
No Festival de Annecy de 2025, a Netflix apresentou as primeiras artes conceituais da série e confirmou o estúdio DIGIC Pictures como responsável pela animação. O diretor de animação adulta da Netflix, Dylan Thomas, chamou Magic: The Gathering de uma das produções mais ambiciosas do estúdio até hoje.
Mais relevante ainda: a série foi categorizada pela Netflix na faixa “Adult Spectacle” — a mesma em que estão Blue Eye Samurai e Splinter Cell: Deathwatch. Isso diz muito sobre o tom pretendido. Não é entretenimento infantil. Não é o Magic que a Hasbro vende para crianças de dez anos aprenderem regras. É a versão adulta, com ambição narrativa equivalente.
Por que animação CGI e não live-action
Matalas foi direto sobre isso: reproduzir os múltiplos planos de existência de Magic em live-action exigiria centenas de milhões de dólares por temporada. A animação não é um segundo plano — é a única forma viável de fazer o multiverso funcionar na tela.
A descrição dele para o projeto: “não é anime, é um grande e expansivo espetáculo CGI” — e uma das vantagens que ele destacou é a capacidade de reescrever cenas depois de ver os animatics, algo impossível em live-action sem orçamento absurdo.
Isso importa porque a história recente de Magic envolve planos que vão de florestas medievais a cidades steampunk, de mundos parasitados por horror cósmico a planos literalmente compostos de metal. Nenhum estúdio de live-action vai conseguir isso de forma consistente sem sacrificar coerência visual.

Os personagens confirmados
O protagonismo é de Chandra Nalaar, a pyromancer cujo arco pessoal serviu como ponto de partida criativo para Matalas. Ajani Goldmane e Jace Beleren também foram confirmados como personagens centrais.
Para quem não joga Magic: Chandra é essencialmente uma maga de fogo com questões sérias com autoridade e um senso de justiça que frequentemente colide com quem está no poder. Jace é o telépata mais poderoso do multiverso e tem uma das histórias de perda de memória mais elaboradas do lore. Ajani é um guerreiro leonino que passou por traição, perda e reconstrução de identidade. Os três juntos formam um trio com dinâmica emocional suficiente para sustentar múltiplas temporadas sem depender do conhecimento prévio dos jogadores.
O paralelo com The Witcher — e onde a comparação faz sentido
The Witcher chegou à Netflix em 2019 com uma promessa similar: transformar um universo de fantasia denso, com lore acumulado em décadas de livros e jogos, numa série que pudesse ser assistida por qualquer pessoa. A primeira temporada dividiu a audiência — quem conhecia Geralt de livros e dos jogos da CD Projekt Red adorou; quem chegou sem contexto ficou perdido com a linha do tempo não linear.
A série de Magic tem um desafio maior ainda: o jogo existe desde 1993, tem mais de 25.000 cartas diferentes e um multiverso com dezenas de planos distintos. Mas a abordagem narrativa — focar em um personagem e expandir gradualmente — resolve exatamente o problema que afundou a primeira temporada de The Witcher para parte da audiência.
Se Matalas conseguir fazer com Chandra o que a equipe de Arcane fez com Vi e Jinx, a série de Magic tem potencial de audiência que vai além da base de jogadores.
Quando estreia?
Sem data confirmada até agora. O diretor de animação adulta da Netflix prometeu mais material para ser mostrado em 2026. Considerando que animação CGI de alta qualidade leva em média dois a três anos de produção depois dos roteiros concluídos, e que os roteiros ficaram prontos em meados de 2025, uma janela realista seria 2027 — otimista seria fim de 2026.
O que muda é que agora, pela primeira vez desde 2019, há razões concretas para acreditar que a série vai acontecer de verdade: estúdio de animação contratado, roteiros finalizados, equipe criativa coesa e uma Netflix que categorizou o projeto como uma de suas apostas adultas de peso.
Para quem jogou Magic nos anos 90 e 2000 e cresceu imaginando como seria ver Jace no ecran, a espera está chegando perto do fim.
Imagem do topo: Critical Hits

