O que causa os terremotos? Entenda por que a terra treme

O que causa os terremotos? Todo terremoto começa embaixo dos seus pés, a quilômetros de profundidade, num ponto que quase ninguém jamais vai ver. E mesmo assim, em questão de segundos, esse movimento consegue derrubar prédios, mudar o curso de rios e, em casos extremos, deslocar o eixo da Terra em frações de segundo.

Para entender por que isso acontece, é preciso voltar à estrutura do planeta e à forma como ele se movimenta há bilhões de anos.

A Terra não é uma peça sólida

A crosta terrestre não forma uma casca única e contínua. Ela é dividida em pedaços gigantescos chamados placas tectônicas, que flutuam sobre uma camada mais quente e semifluida do manto terrestre, o astenosfera. Existem sete placas principais — como a Placa do Pacífico, a Sul-Americana e a Africana — além de dezenas de placas menores, e todas elas se movem, ainda que devagar, alguns centímetros por ano, mais ou menos na mesma velocidade em que suas unhas crescem.

O problema é que essas placas não deslizam suavemente umas sobre as outras. Elas se prendem, acumulam tensão ao longo de anos, décadas ou séculos, e quando essa tensão ultrapassa a resistência da rocha, ocorre uma ruptura brusca. É justamente essa liberação repentina de energia acumulada que gera as ondas sísmicas responsáveis pelo tremor que sentimos na superfície.

As três formas de as placas se encontrarem

Nem todo encontro entre placas produz o mesmo tipo de terremoto. Existem três configurações básicas, e cada uma delas gera abalos com características diferentes.

Nas bordas convergentes, uma placa é empurrada contra a outra, e geralmente uma delas mergulha por baixo da vizinha, num processo chamado subducção. É esse tipo de fronteira que produz os terremotos mais fortes já registrados, como os que atingiram o Chile em 1960 e o Japão em 2011, porque a energia liberada numa zona de subducção costuma ser muito maior do que em outros tipos de falha.

Nas bordas divergentes, as placas se afastam uma da outra, normalmente no fundo do oceano, onde magma sobe para preencher o espaço e forma nova crosta. Os terremotos aqui costumam ser mais frequentes, porém bem menos intensos.

Já nas bordas transformantes, as placas deslizam lateralmente, uma ao lado da outra, sem afundar nem se afastar. A Falha de San Andreas, na Califórnia, é o exemplo mais citado desse tipo de fronteira, e é justamente esse atrito lateral, acumulado por longos períodos sem liberação, que preocupa sismólogos quanto a um grande terremoto futuro na região.

Hipocentro, epicentro e o caminho das ondas

Quando a ruptura acontece dentro da crosta, o ponto exato onde ela se inicia recebe o nome de hipocentro ou foco. A projeção desse ponto na superfície, ou seja, o local logo acima dele, é o epicentro — o termo que normalmente aparece nas notícias.

A partir do hipocentro, a energia se espalha em ondas sísmicas de diferentes tipos. As ondas P, ou primárias, são as mais rápidas e chegam primeiro, comprimindo e expandindo a rocha no sentido do deslocamento. Logo depois vêm as ondas S, mais lentas, que se movem de forma perpendicular e costumam causar mais dano estrutural. Por fim, há as ondas de superfície, que se propagam apenas na crosta e são responsáveis pela maior parte da destruição visível em cidades, já que se deslocam próximo à superfície onde estão as construções.

Quanto mais raso for o hipocentro, maior tende a ser o impacto sentido na superfície, mesmo que a magnitude não seja das mais altas. Foi o caso do terremoto do Haiti em 2010, que teve magnitude relativamente moderada, mas causou destruição catastrófica justamente por ter ocorrido a poucos quilômetros de profundidade, sob uma região densamente povoada e com construções frágeis.

Magnitude não é a mesma coisa que intensidade

Um erro comum é confundir magnitude com intensidade. A magnitude mede a quantidade de energia liberada na fonte do terremoto, e hoje é calculada principalmente pela escala de magnitude de momento, que substituiu a antiga escala Richter na maioria dos estudos científicos sérios. Já a intensidade descreve os efeitos percebidos em um local específico, avaliados por escalas como a Mercalli modificada, que vai de danos imperceptíveis até destruição total.

É por isso que um mesmo terremoto pode ter uma única magnitude, mas registrar intensidades bem diferentes dependendo da distância do epicentro, do tipo de solo e da qualidade das construções locais. Solos arenosos e aterros, por exemplo, amplificam o balanço das ondas sísmicas — fenômeno conhecido como liquefação, quando o solo saturado de água perde a firmeza e se comporta quase como líquido durante o abalo, um dos motivos pelos quais certos bairros sofrem muito mais do que outros situados a poucos quilômetros de distância.

Terremotos também podem ter origem vulcânica ou humana

Nem todo terremoto nasce do movimento entre placas tectônicas. Existem os terremotos vulcânicos, causados pelo deslocamento de magma e gases sob um vulcão antes ou durante uma erupção, funcionando quase como um aviso prévio para vulcanologistas que monitoram a região.

O que causa os terremotos?
O que causa os terremotos? – Imagem: Azeheb Blog

Há ainda os terremotos induzidos por atividade humana, um campo que ganhou atenção nas últimas duas décadas. Grandes represas, ao acumular bilhões de toneladas de água sobre falhas geológicas já existentes, podem alterar a pressão nas rochas abaixo e desencadear abalos — foi o que se discutiu após o terremoto de 2008 na província de Sichuan, na China, próximo à represa de Zipingpu. Da mesma forma, a injeção de água residual em poços profundos usados na extração de petróleo e gás tem sido associada ao aumento expressivo de terremotos em regiões dos Estados Unidos, como Oklahoma, que historicamente registrava poucos abalos e passou a ter centenas por ano depois da expansão dessa prática.

Por que algumas regiões tremem tanto mais que outras

O chamado Anel de Fogo do Pacífico concentra cerca de 90% de todos os terremotos do planeta e boa parte dos vulcões ativos, justamente porque reúne várias zonas de subducção ao redor do oceano, do Japão até o Chile, passando pela costa oeste dos Estados Unidos e pela Indonésia. Já regiões no meio de placas tectônicas, como grande parte do Brasil, ficam relativamente protegidas, embora não sejam totalmente isentas de abalos, já que tensões internas dentro da própria placa também podem gerar terremotos, ainda que raros e geralmente de menor magnitude.

É possível prever um terremoto?

Até hoje, não existe método científico capaz de prever com precisão a data, o horário e o local exato de um terremoto. O que os cientistas conseguem fazer é calcular probabilidades de longo prazo com base no histórico de uma falha, no acúmulo de tensão medido por satélites e sensores, e na frequência de abalos menores numa determinada área. Países como Japão e México investiram pesado em sistemas de alerta precoce, que não preveem o terremoto antes que ele ocorra, mas conseguem detectar as ondas P mais rápidas e emitir um aviso poucos segundos antes da chegada das ondas S, mais destrutivas — tempo suficiente, em muitos casos, para parar trens, fechar válvulas de gás e dar as primeiras instruções de segurança à população.

Vale lembrar também que a atividade sísmica não é um fenômeno raro no planeta como um todo — estima-se que ocorram mais de meio milhão de terremotos por ano, boa parte deles tão fracos que só instrumentos de precisão conseguem registrar. A diferença entre um tremor imperceptível e uma tragédia como a do Haiti ou a do Japão está justamente na combinação entre profundidade do hipocentro, proximidade de áreas urbanas e qualidade das construções locais, três fatores que pesam tanto quanto a magnitude na hora de medir o estrago real de um abalo.

Entender o que causa um terremoto, no fim das contas, não é só uma curiosidade geológica. É a base para decisões que salvam vidas: onde construir, como reforçar estruturas, quais regiões merecem sistemas de alerta mais robustos e por que certos lugares do planeta convivem com esse risco de forma muito mais constante do que outros.

O que causa os terremotos? – Imagem do topo: Folha UOL

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