Terremoto na Venezuela. Quem estava em Caracas naquela quarta-feira diz que o chão pareceu não parar de tremer. Na noite de 24 de junho de 2026, dois tremores sacudiram o norte da Venezuela com apenas 39 segundos de intervalo entre um e outro. O primeiro, de magnitude 7,2, atingiu a região perto de San Felipe, no estado de Yaracuy. Antes que a poeira baixasse, um segundo abalo, ainda mais forte, de magnitude 7,5, partiu de um ponto próximo a Yumare. Juntos, formaram o que sismólogos chamam de terremoto duplo, um fenômeno raro que o Serviço Geológico dos Estados Unidos, o USGS, só havia descrito formalmente em 1980.
A combinação dos dois abalos derrubou prédios em Caracas, devastou bairros costeiros como La Guaira e deixou rachaduras em estradas e aeroportos a centenas de quilômetros do epicentro. Passados poucos dias, o número de mortos confirmados pelo governo venezuelano já havia subido de pouco mais de 200 para mais de 900, com agências internacionais citando balanços que ultrapassam os mil óbitos e dezenas de milhares de desaparecidos sob escombros que ainda não foram completamente revistados.
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Onde e como os tremores aconteceram
O primeiro sismo começou às 18h04 no horário local, a cerca de 23 quilômetros de San Felipe, numa profundidade de pouco mais de 20 quilômetros. O segundo, de magnitude 7,5, ocorreu 39 segundos depois, 28 quilômetros a sudeste de Yumare e a apenas 10 quilômetros de profundidade, bem mais superficial, o que ajuda a explicar a violência com que a energia chegou à superfície.
Ambos os eventos foram registrados ao longo do sistema de falhas de Boconó, uma das principais estruturas geológicas que cruzam o norte venezuelano. Ali, a placa do Caribe se desloca para o leste em relação à placa Sul-Americana numa velocidade de cerca de 20 milímetros por ano, pouco, mas suficiente para acumular tensão durante décadas até que as rochas se rompam de uma vez. O mecanismo é parecido com o da falha de San Andrés, na Califórnia: um deslizamento horizontal entre blocos de crosta terrestre, sem afundamento ou levantamento de terreno.
Por que dois terremotos quase ao mesmo tempo
Um terremoto duplo acontece quando dois sismos de energia parecida se sucedem numa sequência muito rápida, geralmente na mesma falha ou em falhas vizinhas. A sismóloga Judith Hubbard, da Universidade Cornell, explicou que o primeiro deslocamento pode transferir tensão para uma falha próxima e desestabilizá-la o suficiente para que ela se rompa quase de imediato. Há também quem defenda, entre os próprios pesquisadores do USGS, que o que a Venezuela sentiu não tenha sido exatamente dois tremores separados, mas um único rompimento prolongado que avançou por diferentes segmentos da falha em frações de segundo, distinção técnica que pouco muda para quem estava embaixo dos prédios, mas que interessa bastante a quem estuda como prever a força desses eventos.
Os bairros e cidades mais castigados
Caracas amanheceu na quinta-feira com prédios de pé, mas rachados de ponta a ponta. No município de Chacao, o prefeito Gustavo Duque relatou o desabamento de vários edifícios e o resgate de 18 pessoas de apenas um deles. A Academia Militar da Armada Bolivariana teve boa parte da estrutura destruída. Na urbanização Andrés Bello, em Maracay, paredes inteiras caíram e outras ficaram em pé só pela sorte.
Mas foi no litoral que o estrago tomou outra proporção. La Guaira, porta de entrada do Aeroporto Internacional de Maiquetía, o principal do país e que ficou fechado nos dias seguintes, concentrou boa parte das mortes e dos prédios desabados. Em Caraballeda, moradores passaram a buscar parentes presos nos escombros com picaretas e pás antes que qualquer equipe de resgate chegasse. A rodovia que liga a Morón, no estado Carabobo, rachou e cedeu em vários pontos.
A corrida contra o relógio
Depois das primeiras 48 a 72 horas, as chances de encontrar sobreviventes vivos despencam, é a chamada janela de ouro do resgate, e ela ainda não havia se fechado por completo quando equipes internacionais conseguiram puxar pessoas vivas de embaixo de toneladas de concreto. No sábado, agentes da Unidade Militar de Emergências da Espanha resgataram alguém que ficou quase 72 horas presa num prédio residencial em Vistamar, La Guaira. Horas antes, uma equipe da Comunidade de Madrid havia retirado uma idosa e dois netos dos escombros na mesma região.
Os Estados Unidos enviaram o navio de transporte anfíbio USS Fort Lauderdale, equipes de busca e resgate urbano do Grupo de Trabalho 1 da Virgínia, que embarcaram num C-17 Globemaster III, e prometeram US$ 150 milhões em ajuda. A Colômbia despachou mais de 60 socorristas e quatro cães farejadores. Países como Panamá, Catar, Cuba, Nicarágua, Turquia, Jordânia, Barbados, Curaçao, Reino Unido, Brasil e México também se ofereceram para colaborar, segundo a presidente interina Delcy Rodríguez.

Os números que ainda não pararam de subir
Contar os mortos de um desastre desse tamanho, no meio de uma crise de comunicação e infraestrutura, é tarefa que muda de hora em hora. O primeiro balanço oficial, divulgado um dia depois dos tremores, falava em pouco mais de 160 óbitos. Em menos de 48 horas, esse número passou para 235, depois 589 e, neste sábado, o governo venezuelano confirmava ao menos 920 mortos e 3.360 feridos, com agências internacionais já reportando totais superiores a 1.400 e mencionando dezenas de milhares de pessoas ainda sem contato sob os escombros, número que tende a cair conforme famílias forem localizadas, mas que dá uma ideia do tamanho da confusão nas primeiras semanas.
A presidente interina decretou estado de emergência e suspendeu aulas e atividades não essenciais em todo o território nos dias 25 e 26 de junho. Em Caraballeda, parentes de vítimas chegaram a vaiar Rodríguez durante uma visita à zona destruída, sinal de que a paciência da população já estava no limite mesmo antes da tragédia. O país viveu mais de 1.400 protestos só no primeiro semestre de 2026, mais que o dobro de todo o ano anterior.
Uma região que já tinha histórico
O norte venezuelano não foi pego totalmente de surpresa pela geologia, ainda que ninguém pudesse prever o momento exato. Nos últimos cem anos, a área num raio de 250 quilômetros do epicentro registrou apenas sete tremores de magnitude 6 ou superior, incluindo um duplo sísmico em setembro de 2025, de magnitudes 6,2 e 6,3, que já havia matado pelo menos uma pessoa e ferido mais de 110 em Zulia e Lara. Antes disso, um sismo de 6,4 perto de Morón, em 2009, deixou 18 feridos, e outro de 6,0, em 1989, causou danos leves em Valencia. A última vez que a região sentiu algo parecido com a força de 2026 foi em 1975, com um tremor de 6,1.
O que vem depois
A FIFA dedicou um minuto de silêncio às vítimas antes das partidas entre França e Noruega, e Senegal e Iraque, na Copa do Mundo de 2026, um gesto simbólico que mostra como o desastre ultrapassou as fronteiras venezuelanas. Mas o trabalho pesado de verdade está só começando: o USGS estimou que as perdas econômicas podem variar entre 1% e 5% do PIB do país, sem contar o custo de reconstruir hospitais, escolas e milhares de moradias.
A reconstrução da Venezuela vai depender tanto da ajuda externa quanto da capacidade do próprio governo de distribuí-la sem repetir os erros que já geraram desconfiança entre a população nos últimos meses. Moradores de regiões atingidas, como La Guaira, já reclamam de filas longas para combustível e alimento, e analistas ouvidos pela imprensa internacional apontam que qualquer sinal de má gestão na distribuição da ajuda pode acender ainda mais os ânimos de uma população que já vinha indo às ruas com frequência antes da tragédia.
Enquanto isso, em La Guaira e em outras zonas atingidas, equipes seguem cavando entre concreto e ferro torcido, torcendo para que ainda haja tempo de tirar gente viva de lá.
Terremoto na Venezuela – Imagem do topo: BBC


