Tudo sobre ‘Stranger Things: Histórias de 85’. Hawkins está de volta. Só que desta vez, em desenho animado.
Nesta quinta-feira, 23 de abril, a Netflix lança “Stranger Things: Histórias de 85”, o primeiro spin-off oficial da franquia criada pelos irmãos Matt e Ross Duffer — e a primeira vez que o universo de Hawkins aparece em formato de animação. São 10 episódios disponíveis de uma vez, a partir das 5h (horário de Brasília), para quem quiser maratonar sem parar.
O timing não é aleatório. A quinta temporada de Stranger Things encerrou a história principal em dezembro de 2025 — quase quatro meses depois. A Netflix já recoloca Hawkins no catálogo, agora por uma porta lateral que existia na franquia desde sempre, mas que nunca tinha sido explorada: o intervalo entre a segunda e a terceira temporada.
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O Que Acontece na Série
A história se passa no inverno de 1985, num período em que Eleven, Mike, Will, Dustin, Lucas e Max tentam retomar alguma semblança de rotina depois dos eventos da segunda temporada. O portal do Mundo Invertido está fechado. A neve cobre Hawkins. Por alguns dias, parece que podem finalmente só… ser adolescentes.
Isso não dura.
Algo desperta sob o gelo. Novas criaturas do Mundo Invertido — incluindo o que já foi descrito como “zumbis de abóbora” e monstros de cipó — começam a surgir, e o grupo precisa se reunir mais uma vez para investigar o que está acontecendo com a cidade. O showrunner Eric Robles avisou que “nada é exatamente como parece”, sugerindo que a animação vai além de ser apenas um retorno nostálgico ao universo já conhecido.
Uma grande novidade na trama é Nikki Baxter, personagem inédita interpretada por Odessa A’zion. Transferida para Hawkins, com cabelo punk rosado e personalidade difícil de ignorar, Nikki entra rapidamente no núcleo do grupo. Quem já viu os episódios diz que ela é o destaque absoluto da temporada — alguém que funciona como uma “irmã mais velha” para Eleven ao mesmo tempo que constrói um laço inesperadamente profundo com Will Byers, empurrando o personagem a confiar mais em si mesmo. A dinâmica entre os dois é descrita como um dos pontos mais emocionantes da série.
Além de Nikki, a animação apresenta Anna (Janeane Garofalo), a mãe dela e nova professora de biologia da escola, e Daniel Fischer (Lou Diamond Phillips), funcionário de um mercadinho local. A tradição de Stranger Things em escalar atores que marcaram os anos 80 continua firme mesmo no formato animado.
Quem Faz a Animação e Quem Dá Voz aos Personagens
Por trás da direção está Eric Robles, que tem no currículo produções como Fanboy & Chum Chum e Caçadores de Bugs, ambas pela Nickelodeon, além de Glitch Techs, da Netflix. A produção de animação em si é da Flying Bark Productions, estúdio australiano já responsável pela série animada What If…? da Marvel.
Os irmãos Duffer participam como produtores executivos, ao lado de Shawn Levy e Dan Cohen — a mesma configuração da série original. Eles não estão no dia a dia criativo, mas a participação deles garante que a animação não se afaste do que foi estabelecido no cânone da franquia.
Como os atores originais já estão na casa dos 20 anos (Millie Bobby Brown, Finn Wolfhard, Noah Schnapp e os demais), seria estranha uma tentativa de recriar vozes de crianças de 13 anos com o mesmo elenco. A solução foi convocar um elenco completamente novo de dubladores: Brooklyn Davey Norstedt assume Eleven, Luca Diaz é Mike, Benjamin Plessala vive Will, Braxton Quinney é Dustin, Elisha “EJ” Williams dá voz a Lucas e Jolie Hoang-Rappaport é Max. O xerife Hopper é dublado por Brett Gipson.
A escolha é defensável e, segundo quem assistiu aos episódios, funciona razoavelmente bem para Dustin e Max, embora alguns personagens pareçam mais imitações do que interpretações próprias — uma das críticas que já começam a circular.
O Visual: Neon, Neve e Desenho de Sábado de Manhã
O estilo visual é um dos pontos mais comentados da produção. A ideia declarada dos Duffer Brothers era criar algo no espírito dos desenhos de sábado de manhã dos anos 80 — He-Man, Scooby-Doo, e especialmente The Real Ghostbusters, que Eric Robles citou como sua “estrela guia” para o projeto.
O estúdio Flying Bark entregou uma paleta de neons sobre fundo de neve, com a escuridão do Mundo Invertido servindo como contraste pesado nas cenas de tensão. O resultado visual é descrito como bonito e vibrante, mas há uma divisão entre quem acha que o CGI moderno destoa da proposta retrô — os personagens perdem um pouco da expressão facial que o live-action oferecia — e quem simplesmente curte a estética sem muita discussão técnica.
O que é consenso: as criaturas ficaram maiores e mais variadas do que qualquer coisa já vista na série original. A animação permite exagero de proporção, movimento e design que seria inviável (e caríssimo) em live-action, e a produção aproveitou esse espaço.
Como a Série se Encaixa na Linha do Tempo

Este é um ponto sensível para os fãs mais apegados à cronologia. “Histórias de 85” se passa depois do Mind Flayer da segunda temporada e antes dos eventos do Shopping Starcourt da terceira — um intervalo que sempre existiu, mas que nunca foi preenchido na série original.
A vantagem: há liberdade para contar histórias que, por definição, não interferem com o que já aconteceu. Os fãs já sabem como tudo isso vai terminar.
A desvantagem: os novos personagens introduzidos — especialmente Nikki — dificilmente vão reaparecer no cânone principal. A animação cria conexões que não encontram continuidade. Para quem valoriza coerência narrativa, isso pode ser um obstáculo.
Uma crítica que já circula: a série foi anunciada como uma “porta de entrada” para novos espectadores, especialmente mais jovens — a classificação indicativa é TV-PG, bem mais amena que a série original. Mas o roteiro exige familiaridade com as duas primeiras temporadas para funcionar plenamente. Quem chegar sem esse contexto vai sentir o peso de referências que não foram explicadas.
A História Por Trás do Projeto
Curiosamente, a origem de “Histórias de 85” não começa com Stranger Things. Em 2021, Eric Robles foi até a Netflix com uma proposta de animação de terror original. O projeto avançou por quatro meses e foi cancelado — história comum no desenvolvimento de Hollywood. Sessenta dias depois, um executivo da Netflix ligou de volta, não para resgatar aquele projeto, mas para apresentar outro em gestação: uma animação dentro do universo de Stranger Things.
Robles topou. A partir daí, o trabalho foi construir algo que capturasse a essência da série — o perigo real, as amizades, o peso das escolhas adolescentes — sem precisar dos atores originais ou dos orçamentos estratosféricos do live-action.
Matt Duffer, em declaração divulgada pela própria Netflix, disse que a ideia de uma animação foi “uma das primeiras que surgiu quando pensamos em expandir o universo”, e que o formato abriu possibilidades criativas que o live-action simplesmente não permite. Em outra entrevista, ele completou que ficou “impressionado com os roteiros e a arte” que a equipe de Robles trouxe.
O Que Esperar (Sem Spoilers)
Sem entrar em detalhes do que acontece nos episódios finais, o que “Histórias de 85” entrega é uma temporada que funciona melhor em sua segunda metade. Os primeiros episódios têm um ritmo mais lento, dedicados a reestabelecer os personagens e apresentar Nikki ao grupo. A partir do meio da temporada, quando a ameaça concreta ganha forma, a série ganha tração.
O final deixa uma abertura para possíveis continuações — mas se haverá uma segunda temporada depende diretamente da recepção do público nas próximas semanas.
Para os fãs que sentiram o vazio com o fim da quinta temporada em dezembro, “Histórias de 85” é um retorno a Hawkins com tudo que isso implica: amizade, monstros, anos 80 e aquela sensação de que o perigo nunca está completamente resolvido. Para quem espera algo com o peso emocional das melhores temporadas da série original, a animação é um produto menor — mas honesto sobre o que é.
“Stranger Things: Histórias de 85” está disponível a partir de hoje, 23 de abril, na Netflix. Todos os 10 episódios foram liberados simultaneamente.
Tudo sobre ‘Stranger Things: Histórias de 85’ – Imagem do topo: Rolling Stone Brasil

