Aishiteru Game wo Owarasetai. Se você chegou até aqui procurando saber se esse anime vale o seu tempo, a resposta curta é: depende do quanto você tolera dois personagens completamente cientes dos próprios sentimentos que se recusam a admiti-los por puro medo. Se essa premissa te irrita, talvez não seja pra você. Se ela te faz querer ver até onde vai a teimosia, bem-vindo ao clube.
Aishiteru Game wo Owarasetai estreou no dia 14 de abril de 2026 no Tokyo MX e em outras emissoras japonesas, e chegou ao Crunchyroll na mesma data para o resto do mundo. A série é baseada no mangá de Yuki Domoto, que circula no Sunday Webry da Shogakukan desde dezembro de 2021 — e que já passou por uma indicação ao Next Manga Award em 2022 e chegou ao 12º lugar da mesma premiação em 2023. Não é um título obscuro. Tem base sólida e uma comunidade de leitores que acompanha há anos.
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A premissa: um jogo simples com regras complicadas
Tudo começa na sexta série. Yukiya Asagi e Miku Sakura, amigos de infância que se conhecem desde pequenos, inventam o que chamam de “Love Game” — um jogo cujo objetivo é fazer o outro corar ao dizer “eu te amo”. Quem se envergonhar primeiro perde.
Parece simples. Mas quatro anos se passam, eles entram no ensino médio, e o jogo ainda não acabou. Nenhum dos dois cedeu.
O problema — e também a graça — é que os dois já desenvolveram sentimentos reais um pelo outro. Só que ambos têm medo exatamente do mesmo momento: o fim do jogo. Porque o jogo é a desculpa que os mantém próximos. Enquanto ele existir, eles podem dizer “eu te amo” quantas vezes quiserem sem precisar assumir nada. Assim que alguém perder, a brincadeira acaba — e junto com ela, essa zona de conforto que foi construída ao longo de anos.
É uma armadilha que os dois armaram pra si mesmos sem perceber. E o mangá de Domoto sabe muito bem como explorar isso sem deixar a história ficar parada no lugar.
Yukiya Asagi: o plano de se reinventar que deu errado do melhor jeito
No começo do ensino médio, Yukiya chegou com uma missão: enterrar o antigo eu tímido e quieto e se transformar no garoto popular que nunca foi. Ele estudou mangás shoujo como se fossem manuais técnicos. Aprendeu sobre olhares intensos, encostadas na parede, frases que fazem coração acelerar.
O plano era simples: usar tudo isso contra Miku para finalmente vencê-la no jogo.
O problema é que Miku o conhece há anos. Ela sabe exatamente quando ele está forçando algo e quando ele está sendo sincero — e usa esse conhecimento como arma. Cada tentativa de Yukiya de parecer “cool” vira combustível pra ela provocar de volta. E quanto mais ele tenta controlar a situação, mais ele se enrola.
O que salva o personagem de ser só um idiota amoroso é justamente essa autoconsciência contraditória: ele sabe que está usando o jogo como escudo, mas não consegue parar. A voz de Kaito Ishikawa — que já emprestou suas cordas vocais para Genos em One-Punch Man e Iida em My Hero Academia — captura bem essa mistura de determinação e desespero constrangedor.
Miku Sakura: ela não é só a menina fofa
Seria fácil para a série posicionar Miku como a herói passiva que espera Yukiya se declarar. O mangá não faz isso, e a esperança é que o anime também não faça.
Miku é afiada. Ela responde provocação com provocação, não fica esperando ninguém agir por ela e tem plena consciência de que usa o jogo da mesma forma que Yukiya — como proteção. A diferença é que ela é mais econômica: enquanto ele performa, ela apenas observa e espera o momento certo pra agir.
O que a torna interessante é que os sentimentos dela são tão reais quanto os dele, mas o medo que ela sente é diferente. Yukiya tem medo de ser rejeitado. Miku tem medo de mudar algo que, até agora, nunca a decepcionou. Eles são amigos de infância — e isso tem um peso específico que ausente em pares que só se conheceram na escola.
Miku Itou, que já dublou Shiho Nishizumi em Girls und Panzer e Chitose Kaginuki em Girlfriend, Girlfriend, dá à personagem exatamente o tom que ela precisa: uma leveza que esconde cálculo.

A equipe por trás do anime
O estúdio responsável pela animação é o Felix Film, que já tem no currículo títulos como Aharen-san wa Hakarenai e Kimi wa Meido-sama. Não é o maior nome do mercado, mas tem um histórico razoável com comédias românticas — o que é exatamente o que essa série precisa.
A direção ficou com Azuma Tani, com o roteiro nas mãos de Keiichirō Ōchi, que já trabalhou nas duas temporadas de Girlfriend, Girlfriend e nas duas de Go, Go, Loser Ranger!. É alguém com experiência em manter ritmo cômico sem deixar a história perder fôlego. O design de personagens é de Yūki Fukuchi, e a trilha sonora foi composta por Akito Matsuda, que assinou as músicas das franquias Sound! Euphonium e Non Non Biyori — dois títulos conhecidos por usar o áudio para ampliar emoção sem forçar.
A abertura, “Kimi no Sei de Aishiteru” (“É sua culpa que eu te amo”), é cantada por CHiCO with HoneyWorks — o mesmo grupo que fez “Hikaru Nara” para Your Lie in April. Tem aquele pop animado que gruda sem pedir licença. O encerramento, “Little World”, é interpretado por PompadollS e vem num tom mais suave, bom pra respirar depois da intensidade cômica de cada episódio.
Sim, todo mundo vai comparar com Kaguya-sama. E tudo bem.
A comparação é inevitável: dois personagens que se amam mas recusam a se confessar primeiro, e constroem estratégias cada vez mais elaboradas pra vencer o outro. Kaguya-sama: Love is War é o nome mais famoso desse subgênero, e Aishiteru Game vai carregar essa sombra por um bom tempo.
Mas há diferenças reais que importam. Em Kaguya-sama, o duelo acontece entre dois gênios frios e calculistas dentro de um conselho estudantil de elite. A graça está nos monólogos internos, nas referências culturais, na precisão cirúrgica das manipulações.
Aqui é outra coisa. Yukiya não é gênio — ele é um garoto comum que leu mangá shoujo demais e acha que isso é suficiente. A dinâmica é mais física, mais caótica, e o humor vem das reações exageradas e dos planos que dão errado de formas inesperadas. A intimidade de infância que os dois carregam também muda completamente o tom: eles não são rivais que se respeitam de longe, são pessoas que cresceram juntas e sabem exatamente onde apertar.
São duas propostas diferentes dentro de um mesmo guarda-chuva. Comparar é justo, desde que não signifique tratar um como inferior ao outro só porque veio depois.
O mangá: por onde começar antes (ou depois) do anime
O mangá de Yuki Domoto tem atualmente oito volumes publicados no Japão — o oitavo chegou às prateleiras no dia 10 de abril de 2026, quatro dias antes da estreia do anime. No Brasil, a obra não tem licença oficial até o momento, mas a Viz Media publica em inglês com o título I Want to End This Love Game, sendo o sexto volume lançado em maio de 2025.
Para quem quer ler antes de assistir, o mangá dá uma base sólida da voz dos personagens e do ritmo da história. Para quem prefere entrar direto no anime sem spoilers, o primeiro episódio estreou em 14 de abril no Crunchyroll e os próximos capítulos devem seguir o padrão semanal.
Por que vale acompanhar agora
O gênero de comédia romântica escolar tem uma tendência chata de se repetir. Muita série fica girando no mesmo eixo de mal-entendidos e nunca avança de verdade. O que o mangá de Domoto faz diferente — e o que a adaptação precisa preservar pra funcionar — é que o jogo não é um obstáculo externo. Ele é interno. Os dois personagens sabem dos próprios sentimentos. O conflito não é falta de informação: é falta de coragem, e os dois sabem disso também.
Isso muda o tipo de tensão que a série cria. Não é “quando eles vão descobrir que se amam?”. É “qual dos dois vai piscar primeiro?” E essa é uma pergunta muito mais honesta sobre como relacionamentos reais funcionam — ou deixam de funcionar.
Doze episódios. Dois personagens que se conhecem melhor do que a si mesmos. Um jogo que nenhum dos dois quer realmente vencer.
Na Crunchyroll toda segunda-feira.
Imagem do topo: Ramen para Dos

