No domingo, 24 de maio de 2026, às 23h08 no horário de Pequim, um foguete Longa Marcha 2F rasgou o céu noturno sobre o deserto de Gobi e levou três pessoas para uma das experiências mais fisicamente brutais que um ser humano pode enfrentar: passar um ano inteiro flutuando a 400 km da Terra.A missão Shenzhou-23 decolou do Centro de Lançamento de Satélites de Jiuquan e seguiu rumo à estação espacial Tiangong — o “Palácio Celestial” que a China construiu sozinha depois de ser excluída da Estação Espacial Internacional em 2011.
O lançamento foi declarado “um sucesso completo” pela Agência Espacial Tripulada da China (CMSA). Mas o verdadeiro teste ainda vai durar meses.
Quem está a bordo
A tripulação tem três nomes que dizem muito sobre onde o programa espacial chinês chegou.
Zhu Yangzhu, 39 anos, engenheiro aeroespacial e veterano da Shenzhou-16, assume o comando. Ao lado dele está Zhang Zhiyuan, 39 anos, ex-piloto da Força Aérea em seu primeiro voo. E há Lai Ka-ying, 43 anos, que entrou para a história como a primeira pessoa nascida em Hong Kong a chegar ao espaço — uma ex-policial que ingressou no corpo de astronautas apenas em agosto de 2024 e foi treinada especificamente para operar experimentos científicos e o braço robótico da estação.
Os três representam as três categorias do corpo astronáutico chinês: piloto de nave, engenheiro de voo e especialista em carga útil. Não é acidente — é uma tripulação desenhada para cobrir todas as frentes de uma missão que é, ao mesmo tempo, operacional e científica.
O que torna essa missão diferente de todas as anteriores
Desde que a Tiangong entrou em operação plena, a rotina era clara: tripulações se revezavam a cada seis meses. A Shenzhou-23 quebra esse padrão de forma deliberada.
Pela primeira vez na história do programa espacial chinês, um dos três astronautas permanecerá em órbita por cerca de um ano completo. A decisão de quem ficará não estava definida no lançamento — a CMSA afirmou que a escolha dependerá do desempenho físico e técnico observado ao longo da missão. Em outubro de 2026, a Shenzhou-24 deve chegar à Tiangong trazendo, entre outros, um astronauta paquistanês para uma estadia curta. Dois membros da Shenzhou-23 retornam com essa nave. Um fica.
A missão também inclui mais de cem experimentos científicos. A lista vai de investigações com embriões artificiais e ligas de terras raras a testes com baterias de última geração. São dados que a China precisa para justificar o que vem a seguir: pousar na Lua antes de 2030.
O que um ano sem gravidade faz com o corpo
Aqui mora o núcleo mais inquietante da missão — e o motivo pelo qual os cientistas estão prestando atenção.
Em microgravidade, o corpo humano começa a se desconstruir em câmera lenta. Os músculos atrofiam porque deixam de trabalhar contra o peso. Os ossos perdem densidade porque o esqueleto não precisa mais sustentar nada. O fluido corporal se redistribui em direção à cabeça, comprimindo o nervo óptico e deformando o globo ocular — astronautas de longa duração voltam com visão alterada. O sistema imunológico muda de comportamento. O ritmo circadiano desaparece quando o sol nasce e se põe dezesseis vezes por dia.
Richard de Grijs, astrofísico da Universidade Macquarie, na Austrália, listou os focos principais da pesquisa que a missão conduzirá: perda de densidade óssea, atrofia muscular, exposição à radiação cósmica, distúrbios do sono e fadiga psicológica acumulada. Não são hipóteses teóricas — são efeitos documentados em todas as missões longas anteriores, da Mir à ISS.
O que a China quer agora é entender até onde esses limites chegam em 365 dias consecutivos — e como o organismo se comporta diferente de quando fica apenas seis meses. Os dados coletados alimentarão diretamente a atualização dos sistemas médicos e de proteção das futuras espaçonaves.
O recorde mundial para uma única missão ininterrupta ainda pertence ao russo Valeri Polyakov: 437 dias a bordo da Mir, em 1994-1995. A Shenzhou-23 não tentará bater essa marca, mas chegará perto o suficiente para gerar comparações científicas relevantes com uma tripulação submetida a protocolos modernos de monitoramento.

Por que a China está fazendo isso agora
A resposta curta é: porque a Lua não espera.
A longa é mais complexa. Excluída da ISS por pressão norte-americana, a China construiu sua própria infraestrutura orbital do zero e, ao longo dos últimos anos, acelerou o cronograma de maneira consistente. A missão Shenzhou-23 foi antecipada — originalmente prevista para novembro de 2026 — porque a Shenzhou-22 também foi antecipada. O programa está operando mais rápido do que o planejado.
A corrida com os Estados Unidos é real. A NASA mira o retorno humano à Lua pelo programa Artemis até 2028. A China quer chegar antes de 2030. Para isso, precisa saber quanto tempo um ser humano aguenta fora da órbita baixa, o que acontece com seu corpo na viagem de ida, e o que é preciso fazer para trazê-lo de volta em condições de operar.
A missão de um ano na Tiangong é um laboratório para essa questão. Não é simbólica — é infraestrutura científica.
De Grijs resumiu a lógica com precisão: “A China tornou-se muito competente nessas áreas, mas a duração é importante. Um ano em órbita coloca o equipamento e a tripulação em um regime operacional completamente diferente das missões Shenzhou mais curtas.”
O que vem depois
Se tudo correr dentro do planejado, o astronauta que ficará um ano na Tiangong retornará à Terra no segundo semestre de 2027 carregando um conjunto de dados que nenhum programa espacial chinês havia produzido antes.
Esses dados vão determinar como serão projetadas as missões lunares: qual a duração máxima tolerável sem intervenção médica, quais equipamentos precisam de redundância, como manter um ser humano saudável o suficiente para trabalhar em outro mundo.
A Shenzhou-23 também prova algo sobre o próprio programa: a China não está apenas replicando o que os soviéticos e americanos fizeram décadas atrás. Está construindo competência própria, com tripulações próprias, em uma estação que ela controla inteiramente.
O Palácio Celestial agora vai hospedar um experimento que dura doze meses. O corpo humano é o cobaia. E o resultado pode determinar quem chega à Lua primeiro.
A missão Shenzhou-23 foi lançada em 24 de maio de 2026. A definição do astronauta que cumprirá a estadia de um ano será anunciada pela CMSA ao longo da missão.
Imagem do topo: Último Segundo IG

