2 de junho de 2026. Toulouse, França. O Airbus que Fica 22 Horas no Aricar no ar por quase dez vezes mais tempo do que isso, sem parar, sem escala, sem reabastecimento.
Foi o primeiro voo de teste de uma máquina que pode mudar a lógica do turismo internacional.
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De Sydney a Londres Sem Sair da Cadeira
O A350-1000ULR (Ultra Long Range) nasceu para resolver um problema que existe desde que a aviação comercial conectou continentes: a Austrália é longe de tudo. Muito longe.
Hoje, quem voa de Sydney para Londres passa obrigatoriamente por Dubai, Cingapura ou Abu Dhabi. A viagem total dura entre 23 e 26 horas, contando conexão, trânsito em aeroporto, fila de imigração e embarque num segundo avião. Com o A350-1000ULR, o passageiro embarca em Sydney e desce em Londres. Direto. Em até 22 horas.
O mesmo vale para Nova York — outra rota que a australiana Qantas quer inaugurar dentro do Projeto Sunrise, iniciativa que existe desde 2017 e que finalmente está saindo do papel. A entrega da primeira aeronave está prevista para abril de 2027, com início das operações comerciais no primeiro semestre do mesmo ano.
O Que Torna Esse Avião Diferente
Voar 22 horas sem parar não é uma questão apenas de querer. Exige engenharia específica — e o A350-1000ULR tem alterações que o separam da versão convencional da mesma família.
A mais óbvia é o combustível. A aeronave recebeu um tanque adicional na parte traseira da fuselagem com capacidade de aproximadamente 20 mil litros extras. Somado à eficiência dos motores Rolls-Royce Trent XWB-97 — os mesmos que equipam o A350 padrão, mas com configuração otimizada — isso dá à aeronave autonomia para percorrer quase 10 mil milhas náuticas sem parar.
Mais de metade da estrutura do avião é feita de materiais compostos avançados, o que reduz peso e, consequentemente, consumo. As asas também foram ajustadas para menor resistência aerodinâmica durante os longos períodos em velocidade de cruzeiro — uma diferença que, em 22 horas, representa economia real de combustível e emissões.
No voo de teste realizado em Toulouse, a aeronave atingiu altitude de 41 mil pés (cerca de 12,5 mil metros), acima do padrão da maioria das rotas comerciais. O resultado foi positivo o suficiente para a Airbus confirmar o andamento do programa de certificação, que ainda incluirá testes de ventilação, controle de temperatura e o novo sistema de refrigeração da cozinha de bordo.
238 Passageiros — e Não Um a Mais
Aqui entra uma decisão que resume a filosofia do projeto: a Qantas vai colocar 238 passageiros num avião que, em configuração padrão, transporta mais de 300.
Não é erro. É estratégia.
Em voos de 22 horas, conforto deixa de ser um diferencial e passa a ser condição básica. A companhia entendeu isso e projetou a cabine de forma que cerca de 40% dos assentos sejam das classes premium. A distribuição final inclui:
- Primeira Classe: 6 suítes privativas com cama, televisão de 32 polegadas, guarda-roupa e espaço para refeições
- Classe Executiva: 52 poltronas de dois metros de comprimento, com portas deslizantes, carregamento sem fio e televisão de 18 polegadas
- Premium Economy: 40 assentos com espaço superior ao padrão de mercado
- Econômica: 140 assentos com espaçamento de 33 polegadas entre fileiras — maior do que o A380, o 787 e o A330 da própria Qantas
A Zona de Bem-Estar: Exagero ou Necessidade?
Entre a classe econômica e a premium economy, haverá um espaço batizado de Wellbeing Zone — uma área dedicada a alongamento, movimentação e escolha de lanches durante o voo.
Monitores vão exibir rotinas guiadas de exercícios. Superfícies foram esculpidas para facilitar estiramentos. A ideia parte de estudos que a Qantas conduziu sobre os efeitos físicos de voos ultra-longos — e como mitigá-los a bordo.
A revista Forbes já chamou esses recursos de “gimmicks”. Não é uma crítica sem fundamento: uma área de alongamento não elimina trombose venosa profunda, fadiga ou desconforto nas costas depois de quase um dia sentado. Mas é uma tentativa genuína de reposicionar o voo longo como experiência gerenciável, não como ordália.
O restante da cabine aposta em iluminação circadiana (que simula ciclos naturais de luz para ajudar o corpo a se adaptar ao fuso horário do destino), pressurização otimizada para reduzir cansaço e isolamento acústico superior ao padrão do mercado.

Quatro Horas a Menos — Sempre
Um dado que merece atenção: a Qantas projeta redução de até quatro horas no tempo total de viagem nas rotas com escala que o A350-1000ULR vai substituir.
Quatro horas é um número alto. É o tempo que muitos passageiros perdem hoje em aeroportos de conexão, esperando um segundo embarque, passando por controles de imigração desnecessários ou simplesmente sentados numa sala de espera. Eliminar isso — especialmente nas rotas entre Austrália e Europa — tem valor real para quem viaja a trabalho e para quem viaja por lazer com agenda apertada.
Nas rotas mais longas, como Sydney–Londres, a redução de tempo pode chegar a esse patamar mesmo com a aeronave voando por mais de 20 horas, porque a escala adicionava tempo morto que o voo direto simplesmente não tem.
O Projeto Sunrise Levou Tempo Para Acontecer
A história do A350-1000ULR com a Qantas começa em 2017, quando a companhia anunciou publicamente a intenção de operar as rotas mais longas do mundo. O contrato com a Airbus só foi assinado em 2022 — a pandemia pausou tudo no meio do caminho.
Desde então, os prazos escorregaram algumas vezes. A estreia comercial estava prevista para 2025, foi empurrada para o fim de 2026 e agora está fixada para 2027. A entrega da primeira aeronave, inicialmente prevista para 2026, está programada para abril de 2027.
Doze unidades foram encomendadas. O voo de teste de 2 de junho de 2026 foi o primeiro passo concreto da campanha de certificação — que ainda tem meses pela frente antes que qualquer passageiro pague uma passagem.
O Que Isso Significa Para o Turismo
A abertura de rotas diretas entre Austrália e Europa — e possivelmente entre Austrália e São Paulo, destino que a Qantas também mira — muda o cálculo de quem planeja viagens longas.
Menos escala significa menos risco de bagagem extraviada, menos conexão perdida, menos jet lag acumulado em dois voos seguidos e menos custo com taxas aeroportuárias embutidas no preço da passagem. Para o turismo de longa distância, rotas diretas historicamente aumentam demanda — voos entre Europa e Estados Unidos cresceram significativamente depois que conexões foram eliminadas nas décadas de 1980 e 1990.
O A350-1000ULR não é uma aeronave de massa. Com 238 assentos e alta proporção de classes premium, as passagens não serão baratas — especialmente no início. Mas a existência da rota, uma vez estabelecida, costuma criar competição e, eventualmente, maior acesso.
A aviação está perto de um marco que parecia ficção científica há algumas décadas: voar de um lado ao outro do planeta sem pousar no meio do caminho. O avião que fez o primeiro teste em Toulouse na semana passada é o artefato físico mais próximo disso que já existiu.
O Airbus que Fica 22 Horas no Ar – Imagem do topo: AEROIN

