Antes de virar assunto de fóruns de saúde e polêmica regulatória nos EUA, o Kratom era simplesmente a folha que um seringueiro malásio mastigava para aguentar o turno longo. A história começa bem antes de qualquer cápsula ou extrato.
A planta por trás do nome
Kratom é o nome popular da Mitragyna speciosa, uma árvore da família Rubiaceae — a mesma família do café e da gardênia. Ela cresce naturalmente em solos úmidos e quentes da Tailândia, Malásia, Indonésia, Papua-Nova Guiné e Mianmar. Em condições ideais, chega a 25 metros de altura, com folhas largas de até 20 centímetros. O que distingue essa planta de seus parentes botânicos é a concentração de alcaloides nas folhas, principalmente a mitragynina e a 7-hidroximitragynina.
Esses dois compostos interagem com os receptores opioides do cérebro, mas de uma maneira farmacologicamente peculiar: em doses baixas, produzem efeitos estimulantes; em doses mais altas, o comportamento se inverte e passa a ser sedativo e analgésico. Essa dualidade é rara entre plantas psicoativas e está no centro de todo o debate científico sobre o Kratom.
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Como era usado antes de virar tendência
No Sudeste Asiático, o Kratom não era produto de nicho nem suplemento alternativo. Era prático. Trabalhadores rurais na Tailândia e na Malásia mastigavam as folhas frescas ou faziam um chá simples para lidar com a fadiga de turnos pesados — corte de seringa, pesca, colheita. O uso era cotidiano e integrado à cultura local, parecido com o papel da folha de coca nos Andes ou do khat no Chifre da África.
Registros históricos tailandeses documentam o uso pelo menos desde o século XIX. Em 1836, o botânico holandês Pieter Korthals foi o primeiro ocidental a descrever a planta formalmente. Décadas depois, em 1907, o pesquisador britânico L. Wray enviou amostras para análise química e descreveu os efeitos relatados pelos trabalhadores locais. Nessa época, o uso já era suficientemente disseminado para que o governo tailandês o regulamentasse — e, em 1943, proibisse, parcialmente para proteger a arrecadação de impostos sobre ópio.
“Não é uma planta nova descoberta pelo wellness ocidental. É uma planta antiga sendo redescoberta por ele.”Pesquisadores de etnobotânica, revisão de 2021
O que acontece no corpo
A mitragynina representa entre 60% e 70% do total de alcaloides na folha seca. Ela age como agonista parcial dos receptores mu-opioides — os mesmos receptores que respondem à morfina — mas com uma seletividade diferente, o que teoricamente levaria a menos depressão respiratória do que opioides clássicos. A 7-hidroximitragynina, presente em concentrações muito menores, é proporcionalmente mais potente e responde por boa parte dos efeitos analgésicos em doses altas.
Além dos receptores opioides, estudos indicam que os alcaloides do Kratom também interagem com receptores adrenérgicos e serotoninérgicos. Isso ajuda a explicar o perfil duplo da planta: a ativação adrenérgica contribui para o efeito estimulante em doses baixas, enquanto a ação opioide domina conforme a dose aumenta.
Perfil botânico — Mitragyna speciosa
- Família: Rubiaceae (parente do café)
- Origem: Tailândia, Malásia, Indonésia
- Alcaloide principal: Mitragynina (60–70% do extrato seco)
- Segundo alcaloide: 7-hidroximitragynina (mais potente, menor concentração)
- Ação farmacológica: agonismo opioide parcial + efeito adrenérgico
- Nomes locais: Krathom (Tailândia), Biak-biak (Malásia), Ketum
Variedades e o sistema de “veias”
Quem encontra Kratom à venda depara rapidamente com termos como “veia vermelha”, “veia verde” e “veia branca”. Essa nomenclatura se refere à coloração da nervura central das folhas e é amplamente usada no mercado para sugerir perfis de efeito distintos. A veia vermelha seria mais relaxante; a branca, mais estimulante; a verde, intermediária.
O problema é que a ciência ainda não confirmou essa distinção com rigor. A coloração pode variar com a maturação da folha, as condições de solo e o processo de secagem — fatores que também alteram o perfil de alcaloides. Regiões produtoras como Bali, Borneo, Sumatra e Maeng Da (um nome comercial, não geográfico) também são usadas como marcadores de qualidade, mas sem padronização científica estabelecida. Para quem compra, isso significa que a consistência entre lotes do mesmo produto pode variar consideravelmente.

O debate regulatório que não tem fim
Em 2016, a DEA americana anunciou a intenção de colocar o Kratom como substância controlada Classe I — a mesma categoria da heroína. A reação foi surpreendentemente organizada: petições com centenas de milhares de assinaturas, cartas de usuários ao Congresso, manifestações em frente à FDA. A agência recuou e abriu período de consulta pública. Até hoje, o Kratom permanece legal em nível federal nos EUA, embora proibido em alguns estados.
No Brasil, a Anvisa não classifica o Kratom como substância proibida nem como medicamento aprovado — o que cria uma zona cinzenta: não é ilegal importar ou consumir, mas também não existe produto regularizado para venda. Na Tailândia, onde a planta é nativa, ela foi descriminalizada em 2021 após décadas de proibição, com o governo reconhecendo seu uso tradicional e potencial econômico para agricultores locais.
O que a pesquisa clínica diz — e o que ainda não sabe
O interesse científico cresceu junto com o uso recreativo e terapêutico no Ocidente. Estudos publicados em periódicos como Drug and Alcohol Dependence e Journal of Psychoactive Drugs documentaram padrões de uso, relatos de dependência e casos de abstinência em usuários crônicos. A síndrome de abstinência do Kratom existe e compartilha características com a abstinência opioide — insônia, irritabilidade, dores musculares, ansiedade — mas é descrita como geralmente menos intensa.
Por outro lado, pesquisadores investigam o potencial da mitragynina como ferramenta no tratamento de dependência de opioides, justamente por seu perfil de agonismo parcial. A lógica é parecida com a da metadona ou buprenorfina — substituir um opioide de alta potência por um de ação mais controlada. Esses estudos ainda estão em fases iniciais, e nenhum tratamento baseado em Kratom foi aprovado por agências regulatórias.
O maior desafio metodológico é a variabilidade da planta. Diferentemente de um fármaco sintético com concentração precisa, um produto de Kratom pode ter perfis de alcaloides completamente diferentes dependendo da origem, da colheita e do processamento. Isso torna os ensaios clínicos padronizados extraordinariamente difíceis.
Riscos que merecem atenção real
Mortes associadas ao Kratom foram reportadas, mas a maioria envolve combinação com outras substâncias — especialmente opioides sintéticos como o fentanil. Casos de toxicidade hepática foram documentados em usuários de longo prazo. A dependência física é real e pode se desenvolver com uso diário por períodos prolongados. Isso não transforma o Kratom em veneno, mas também não o torna inócuo.
O perfil de risco parece significativamente diferente do dos opioides prescritos — especialmente quanto ao risco de overdose respiratória — mas os dados ainda não são suficientes para afirmações definitivas sobre segurança em longo prazo. Quem usa com frequência merece acesso a informação honesta, não a extremos: nem demonização, nem romantização.
Por que isso importa agora
O mercado global de Kratom cresceu consideravelmente na última década. Nos Estados Unidos, estimativas do setor apontam para mais de 15 milhões de usuários regulares. A indústria de suplementos vende folhas secas, pós, extratos concentrados, cápsulas e bebidas prontas — com regulação mínima e controle de qualidade desigual.
Esse crescimento acontece em paralelo à crise de opioides — e não é coincidência. Parte dos usuários descobriu o Kratom como alternativa a analgésicos prescritos ou como tentativa de sair de dependências mais pesadas. Outros o usam para produtividade, humor ou simplesmente porque gostam do efeito. O fenômeno é real, complexo e merece mais ciência e menos pânico moral dos dois lados do debate.
O Kratom não é a solução para a crise de opioides, nem é uma droga de abuso sem qualquer utilidade. É uma planta com farmacologia interessante, história longa, mercado crescente e pesquisa insuficiente. Entender o que ela é de fato — sem filtros de marketing nem de alarmismo — é o ponto de partida para qualquer conversa honesta sobre o assunto.
Nota editorial: Este artigo tem caráter informativo e jornalístico. Não constitui recomendação de uso, orientação médica nem endosso de qualquer produto. O uso de Kratom envolve riscos e a legislação varia por país. Consulte profissionais de saúde antes de qualquer decisão relacionada ao tema.
Imagem do topo: NBC News

