Trump e Irã assinam acordo de paz: o que foi fechado e por que o presidente iraniano ainda hesita

Trump e Irã assinam acordo de paz. Depois de mais de cem dias de bombardeios, mísseis interceptados sobre o Golfo e um Estreito de Ormuz fechado para o tráfego internacional, Estados Unidos e Irã puseram um ponto final — pelo menos no papel — na guerra que começou em 28 de fevereiro. No domingo, dia 14 de junho, Donald Trump anunciou em sua rede social que o entendimento com Teerã “está concluído”.

Na segunda-feira seguinte, ele e o vice-presidente JD Vance assinaram eletronicamente o documento. Só que quem representou o Irã na assinatura não foi exatamente quem a manchete mais repetida por aí sugere.

Quem assinou pelo lado iraniano

Trump e Vance puseram a assinatura digital no texto ao lado de Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano — e não do presidente da República, Masoud Pezeshkian, como muita gente assumiu ao ler as primeiras manchetes. A diferença não é só protocolo. Funcionários do governo americano alegam que Ghalibaf tinha autorização direta do novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, para fechar o entendimento em nome do regime, contornando assim o Executivo civil numa negociação que toca diretamente a soberania do país.

Pezeshkian, por sua vez, mantém o pé no freio. Horas depois da assinatura eletrônica, ele escreveu que o passo dado era significativo para interromper a guerra e abrir caminho às negociações, mas que um acordo final ainda não tinha sido formalizado. A frase resume bem o momento: a engrenagem política se move, só que sem unanimidade interna sobre quem, de fato, fala pelo Irã neste capítulo.

A guerra que levou a isso

Vale lembrar o tamanho do que estava em jogo. Os ataques começaram em 28 de fevereiro, quando Estados Unidos e Israel bombardearam instalações iranianas alegando avanços no programa nuclear de Teerã. Entre os mortos naquele primeiro fim de semana de combate estava o próprio líder supremo, aiatolá Ali Khamenei — substituído poucos dias depois pelo filho, Mojtaba, eleito pela Assembleia de Peritos em meio a denúncias de pressão da Guarda Revolucionária e boicote de parte do clero mais tradicional.

O Irã respondeu fechando o Estreito de Ormuz, corredor por onde passa cerca de um quinto do petróleo comercializado no planeta, e o barril chegou a subir perto de 50% em poucas semanas. Os Estados Unidos retaliaram bloqueando portos iranianos. Um cessar-fogo frágil entrou em vigor em 8 de abril, foi prorrogado em 21 de abril e quase ruiu outras vezes — inclusive por causa de ataques israelenses no Líbano, que Trump chegou a apontar publicamente como motivo de atraso nas tratativas.

O que o texto promete, até onde se sabe

O conteúdo integral do memorando segue em sigilo e só deve ser revelado depois da cerimônia formal. Mesmo assim, alguns pontos já vazaram por meio de declarações oficiais e relatos de agências internacionais:

  • fim imediato e permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo o Líbano;
  • reabertura total do Estreito de Ormuz, sem cobrança de pedágio, na versão defendida por Washington;
  • suspensão do bloqueio naval americano contra portos iranianos;
  • um prazo de 60 dias para negociações técnicas detalhadas, que começam logo após Genebra;
  • desmantelamento supervisionado de parte da estrutura de enriquecimento de urânio do país.

Só que já existe uma divergência visível entre as duas leituras do acordo. Enquanto Trump garante isenção permanente de qualquer cobrança para embarcações que cruzem Ormuz, o Ministério das Relações Exteriores do Irã informou, no mesmo dia, que vai cobrar taxas por determinados serviços prestados às embarcações na região. Pequena diferença, mas reveladora: mesmo “fechado”, o acordo já nasce com duas versões circulando.

Genebra, sexta-feira 19 de junho

A cerimônia presencial está marcada para esta sexta-feira, na Suíça. Vance confirmou presença e disse à Fox News que pretende estar lá “definitivamente”, deixando a participação do próprio Trump como possibilidade, não certeza. Do lado iraniano, o vice-chanceler Kazem Gharibabadi confirmou que o texto do que vêm chamando de Memorando de Entendimento de Islamabad — batizado assim porque foi a capital paquistanesa quem recebeu boa parte das tratativas finais — está pronto para a assinatura oficial.

Foi o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, quem anunciou o avanço ao mundo, agradecendo também ao Catar, à Arábia Saudita e à Turquia pelo papel de mediação. Essa é outra peça que escapa do roteiro mais previsível: não foram diplomatas europeus nem a ONU que destravaram o impasse, e sim um grupo de países do Golfo e do Sul da Ásia com interesse direto em manter o petróleo fluindo por Ormuz.

Resistência interna nos dois lados

Nem tudo é consenso. Em Washington, alas mais duras do Partido Republicano temem que o acordo deixe em segundo plano justamente os dois pontos que motivaram o início da guerra: o programa nuclear iraniano e o desenvolvimento de mísseis balísticos. Talvez prevendo esse desconforto, Trump disse a jornalistas durante a cúpula do G7, na França, que vai enviar o texto provisório ao Congresso para análise — algo que, segundo ele mesmo admitiu, nem fazia parte do plano original até a ideia lhe agradar de repente.

Em Teerã, a mídia estatal tratou o desfecho quase como uma capitulação americana, numa narrativa praticamente oposta à versão contada em Washington. E Pezeshkian segue cobrando garantias mais sólidas antes de declarar o capítulo encerrado, lembrando publicamente que o Irã cumpriu compromissos anteriores e foi quem sofreu a escalada militar, não o contrário.

O fator Israel

Benjamin Netanyahu talvez seja a variável menos controlável de toda essa equação. Um ataque israelense em Beirute quase descarrilou a assinatura na própria véspera do anúncio de domingo, e Teerã deixou claro desde o início das negociações que qualquer acordo precisaria, necessariamente, incluir o fim das operações israelenses contra o Hezbollah no território libanês. Se Israel agir de forma unilateral nas próximas semanas, todo o equilíbrio construído sob mediação paquistanesa, catariana, saudita e turca pode simplesmente não resistir.

Trump e Irã assinam acordo de paz
Trump e Irã assinam acordo de paz – Imagem: Good Prime

Linha do tempo, para quem perdeu o fio da meada

  • 28 de fevereiro: Estados Unidos e Israel atacam instalações iranianas; aiatolá Ali Khamenei morre nos bombardeios.
  • Início de março: Mojtaba Khamenei é eleito novo líder supremo pela Assembleia de Peritos, em votação contestada por parte do clero.
  • 8 de abril: primeiro cessar-fogo entra em vigor, ainda frágil e sujeito a violações pontuais.
  • 21 de abril: cessar-fogo é prorrogado depois de uma rodada de negociações no Paquistão ser suspensa de última hora.
  • 14 de junho: Shehbaz Sharif anuncia que as partes chegaram a um acordo; Trump confirma horas depois.
  • 15 de junho: assinatura eletrônica por Trump, Vance e Ghalibaf; Pezeshkian pede cautela.
  • 19 de junho: cerimônia formal marcada para Genebra, dando início a 60 dias de negociações técnicas.

Colocado lado a lado assim, o intervalo entre o anúncio do acordo e a cerimônia oficial parece curto. Mas, para quem acompanhou de perto os meses anteriores, marcados por rodadas suspensas, vice-ministros desmentindo prazos e cessar-fogos que duravam poucas semanas, cinco dias entre o anúncio e a assinatura presencial já representa um ritmo raro de estabilidade.

O que observar a partir de agora

Os próximos 60 dias prometem pesar mais do que a própria assinatura desta semana. É nesse período que as equipes técnicas dos dois países vão tentar transformar um cessar-fogo anunciado em rede social num arranjo verificável de fato — com inspeções, cronograma de desmonte nuclear e garantias de que o Estreito de Ormuz não volte a ser usado como instrumento de pressão.

A cerimônia de Genebra é simbólica e necessária, mas o teste real só começa depois que as câmeras forem desligadas. Para quem acompanha o mercado de petróleo, o sinal mais imediato já apareceu: Trump anunciou a liberação do tráfego marítimo horas depois do anúncio de domingo, numa tentativa de aliviar a pressão sobre os preços antes mesmo de o texto definitivo existir. Resta saber se essa calma resiste até sexta-feira — ou se, como já aconteceu duas vezes desde abril, um novo episódio no Líbano ou em Ormuz manda tudo de volta à estaca zero.

Trump e Irã assinam acordo de paz – Imagem do topo: Poder 360

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