Tem gente que ainda enxerga o setor de tecnologia como um território só de programadores digitando código o dia inteiro. Um levantamento recente do Inteli, instituto de tecnologia e liderança, em parceria com a consultoria WKS, mostra que essa imagem está bem longe da realidade — e que os salários mais altos do setor nem sempre vêm de onde a maioria imagina.
O estudo analisou 72,7 mil vagas publicadas entre abril e junho de 2025 e, depois de aplicar filtros metodológicos, chegou a uma base de quase 20 mil oportunidades de tecnologia espalhadas pelo país. O resultado ajuda a explicar por que empresas de todos os tamanhos seguem brigando pelos mesmos profissionais: entre 2019 e 2024, a demanda por gente qualificada em TI somou 665 mil vagas, enquanto a oferta de novos trabalhadores ficou perto de 464 mil. Faltou gente para preencher mais de 200 mil posições.
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Um setor que já não é mais “só das empresas de tecnologia”
Bancos, hospitais, redes de varejo, indústrias e até o agronegócio disputam hoje os mesmos candidatos que antes eram exclusividade de startups e big techs. A tecnologia deixou de ser um departamento isolado dentro das empresas e virou parte da engrenagem de praticamente qualquer negócio — hoje o setor já responde por 6,5% do PIB brasileiro.
Lucas Niemeyer, coordenador de pesquisa do Inteli, chama atenção para um detalhe pouco comentado: a maior parte das vagas ainda está concentrada no Sudeste, principalmente em São Paulo, o que aperta ainda mais a corrida por talentos nas demais regiões do país.
O ranking dos salários mais altos
Com tanta gente disputando os mesmos nomes, os cargos de liderança e as funções ligadas à segurança digital e à inteligência artificial acabaram puxando a régua salarial para cima. Veja como ficou o ranking das dez profissões mais bem pagas do setor, segundo o levantamento:
- Chief Technology Officer — até R$ 53,6 mil por mês
- Chief Security Officer — R$ 52,5 mil por mês
- Chief Information Officer — até R$ 49,5 mil por mês
- Gerente de Dados — até R$ 37,9 mil por mês
- Gerente de Segurança da Informação — até R$ 37,2 mil por mês
- Gerente de TI Generalista — até R$ 35 mil por mês
- Especialista em IA e Machine Learning — até R$ 32,5 mil por mês
- Gerente de BI — até R$ 29,4 mil por mês
- Gerente de Infraestrutura — até R$ 27,9 mil por mês
- Engenheiro de Inteligência Artificial — até R$ 27,1 mil por mês
Repare que a lista tem uma característica bem clara: sete dos dez cargos são de gestão, e três combinam liderança com uma área técnica específica, como dados, segurança ou IA. Isso mostra que quem topa acumular responsabilidade de gestão junto com o domínio técnico continua tendo o teto salarial mais alto do mercado.
Mas isso não significa que só quem vira gestor consegue ganhar bem. Niemeyer pondera que as estruturas das empresas de tecnologia estão ficando mais horizontais, com menos camadas de chefia e mais espaço para especialistas técnicos que geram impacto direto no negócio sem precisar assumir uma equipe. Essa mudança também conversa com um comportamento que já vem sendo notado entre profissionais mais jovens: o interesse por cargos tradicionais de liderança está caindo, o que empurra as empresas a criar trilhas de carreira técnica bem remuneradas como alternativa.
Onde estão as vagas de verdade
Aqui está um dos pontos mais interessantes da pesquisa. Quando os profissionais foram perguntados sobre qual área consideravam mais relevante no mercado atual, 79% apontaram inteligência artificial. Só que, ao olhar para as vagas efetivamente publicadas, o cenário muda completamente.
Veja como as contratações estão distribuídas por área:
- Desenvolvimento de Software — 35,7%
- Infraestrutura e Suporte — 23,2%
- Dados e Inteligência Artificial — 17,7%
- Projetos e Gerenciamento — 12,9%
- Testes e Controle de Qualidade — 5,7%
- Segurança da Informação — 2,5%
- Automação de Processos e Sistemas — 2,3%
Quase 60% das oportunidades continuam em desenvolvimento de software e infraestrutura, funções mais tradicionais e menos badaladas do que IA, mas que sustentam o funcionamento diário das empresas. Niemeyer explica esse descompasso com um argumento direto: o Brasil ainda tem maturidade tecnológica baixa em boa parte das companhias, e cerca de 80% das pequenas e médias empresas do país estão em estágios iniciais de digitalização. Ou seja, o hype gira em torno de IA, mas quem contrata ainda precisa, antes de tudo, resolver problemas mais básicos de sistemas e infraestrutura.

O que faz o salário subir dentro de cada função
Independentemente do cargo, alguns fatores aparecem repetidamente entre as vagas mais bem remuneradas. O primeiro, sem surpresa, é o conhecimento em inteligência artificial: entre as oportunidades com faixa salarial acima de R$ 10 mil, a exigência de IA aparece com o dobro da frequência observada nas vagas que não mencionam a tecnologia.
O inglês também pesa, mesmo sendo exigido em poucas vagas. Apenas 7,5% das oportunidades com salário divulgado pedem o idioma explicitamente, mas entre elas, quase metade oferece remuneração entre R$ 5 mil e R$ 10 mil — proporção bem maior do que a encontrada nas vagas sem exigência de inglês. A cobrança pelo idioma também cresce com a senioridade: entre vagas para plenos e seniores, 8,7% pedem inglês, contra 6,6% nas posições júnior.
Certificações técnicas fecham essa lista. Segundo o levantamento, quase metade dos gestores de contratação está disposta a pagar salários mais altos para candidatos com certificações em áreas como computação em nuvem, segurança da informação, engenharia de dados e inteligência artificial — um caminho mais rápido e barato do que uma pós-graduação para quem já está no mercado e quer subir de faixa salarial.
Comportamento pesa tanto quanto código
Um erro comum de quem está migrando para tecnologia é achar que domínio técnico resolve tudo. O estudo do Inteli mostra outro lado da história: as soft skills mais citadas nas vagas são comunicação (21%), criatividade (17,8%), organização (15,8%), trabalho em equipe (11,4%) e liderança (7,6%).
Do lado técnico, as competências mais pedidas nos anúncios são computação em nuvem (13,8%), metodologias ágeis (6,7%), AWS (5,9%), Azure (5,8%) e Windows (5,1%) — uma base que atravessa praticamente todas as especializações da área, do desenvolvimento à segurança da informação.
Nem toda porta de entrada é igual
Para quem está começando agora, escolher a área certa faz toda diferença na hora de conseguir a primeira oportunidade. A pesquisa mapeou a proporção de vagas júnior em cada especialização:
- Infraestrutura e Suporte — 43% das vagas são para iniciantes
- Automação de Processos e Sistemas — 40%
- Testes e Controle de Qualidade — 26%
- Projetos e Gerenciamento — 24%
- Desenvolvimento de Software — 22%
- Dados e Inteligência Artificial — 18%
- Segurança da Informação — 17%
Ou seja: as áreas mais badaladas do momento, como dados, IA e segurança, são justamente as que menos abrem espaço para quem está entrando agora no mercado. Isso não quer dizer que sejam inacessíveis, mas sim que costumam exigir uma base técnica prévia — muitas vezes construída em infraestrutura, suporte ou desenvolvimento antes de migrar para uma especialização mais avançada.
Niemeyer defende que a chegada da inteligência artificial não deveria afastar quem está pensando em entrar na área, e sim funcionar como um convite para acompanhar de perto essa transformação, em vez de apenas assistir de fora.
O perfil que o mercado está pagando mais caro
No fim das contas, o levantamento deixa um recado bem prático: o profissional mais bem pago hoje não é necessariamente o que sabe mais linhas de código, mas aquele que combina conhecimento técnico atualizado, inglês, alguma certificação relevante, visão de negócio e capacidade de se comunicar bem com times e lideranças. Em um mercado com déficit estrutural de mão de obra, essa combinação continua sendo o que separa quem fica na média salarial de quem chega ao topo do ranking.
Imagem do topo: Tera


