Euphoria S03E01 — “Ándale”. Quatro anos. Esse foi o tempo que os fãs de Euphoria esperaram por uma resposta às perguntas que a segunda temporada deixou abertas. A terceira chegou no domingo, 12 de abril, com o episódio “Ándale” — e em vez de responder, preferiu fazer mais perguntas. Perguntas mais sujas, mais perigosas e, dependendo de onde você se posiciona, mais interessantes.
O resultado é um episódio que divide. Tem quem veja nele a morte da série que amava. E tem quem enxergue exatamente o oposto: uma série que finalmente cresceu junto com os personagens que acompanha.
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Cinco anos depois: o salto que muda tudo
A temporada começa com um salto temporal de cinco anos. Os personagens saíram do ensino médio, entraram na vida adulta — e ninguém saiu ileso.
A mudança de cenário é imediata. Não existe mais a identidade visual hipnótica dos corredores da escola, os flashes de glitter, os olhos arregalados sob luzes de festa. O que a câmera mostra agora é mais cru, mais seco. Uma estética de road movie que faz o espectador sentir o calor do deserto antes mesmo de entender o que está acontecendo.
Sam Levinson claramente não quer repetir o que fez nas primeiras duas temporadas. O problema, como boa parte da crítica apontou, é que nem sempre fica claro o que ele quer fazer no lugar.
O que acontece com Rue
A primeira cena do episódio já serve de diagnóstico: Rue Bennett (Zendaya) está no meio do deserto, dirigindo ilegalmente um Cherokee velho em direção a uma cerca metálica de quatro metros e meio de altura. Com rampas improvisadas, ela tenta cruzar a cerca de carro. Quando chega ao topo, o carro trava. Ela desce, abandona o veículo ali em cima e vai embora a pé.

É uma metáfora visual que dispensa tradução: Rue está presa no meio do caminho. Nem avança, nem recua.
O que a levou até ali é a dívida que carrega desde a segunda temporada — aquela mala de drogas que a mãe jogou fora. Laurie (Martha Kelly), a traficante de voz mansa e olhos frios, reaparece para cobrar. Com juros compostos de mais de 20% ao longo dos anos, a dívida original se transformou em algo na casa dos 43 milhões de dólares. Laurie aceita um acordo: cem mil dólares para fechar a conta.
Rue não tem cem mil dólares. Então começa a trabalhar como mula.
Junto com Faye (Chloe Cherry), ela engole cerca de 150 balões de heroína e cocaína — aproximadamente um quilo de droga no estômago — e atravessa a fronteira entre México e Estados Unidos. A sequência é filmada sem glamour nenhum. Uma mulher jovem morre quando um balão estoura dentro dela. A série mostra como as drogas são recuperadas do corpo. É perturbador de propósito.
A entrega leva Rue até o Texas, onde ela acaba dentro do universo de Alamo (Adewale Akinnuoye-Agbaje), um empresário de casas noturnas que opera como uma espécie de rei local. Enquanto Laurie age nas sombras com frieza calculada, Alamo é performático, expansivo, cercado de seguranças e mulheres que trabalham para ele. São dois lados de uma mesma moeda criminosa.
Ao perceber que uma das dançarinas de Alamo morreu por conta de drogas adulteradas com fentanil — exatamente as drogas que ela entregou —, Rue é colocada em xeque. Para sair viva, ela conta tudo. E então apela para algo inesperado: diz que acredita que Deus a colocou naquele encontro por um motivo.
Alamo decide testar essa teoria. Coloca uma maçã verde na cabeça de Rue e atira com um revólver banhado a ouro.
Ela sobrevive. Cai de joelhos rindo de forma completamente descontrolada.
O episódio fecha aí. Rue não escapou do perigo — ela apenas trocou um cartel pelo outro, possivelmente ainda mais instável. A “proteção divina” que ela sente é o tipo de ilusão que a série já explorou antes: Rue sempre encontra uma nova narrativa para justificar o próprio caos.
O que acontece com os outros

Enquanto Rue domina o episódio, os demais personagens aparecem em flashes que atualizam onde cada um foi parar.
Lexi (Maude Apatow) está em Los Angeles, trabalhando como assistente de Patty Lance (Sharon Stone), uma lenda da televisão diurna. É a Lexi que sempre foi: observadora, competente, carregando o peso dos outros. Ela permite que Rue durma no sofá dela, mas mantém distância emocional suficiente para não se afogar junto.
Lexi também menciona que Fezco está vivo — cumprindo trinta anos de prisão. É a forma que a produção encontrou para lidar com a morte do ator Angus Cloud em 2023. Em vez de matar o personagem fora de cena, ele permanece na história como uma presença ausente, o que funciona como homenagem discreta sem forçar a barra.
Cassie (Sydney Sweeney) virou produtora de conteúdo no OnlyFans e está noiva de Nate (Jacob Elordi). Estão juntos, disfuncionais como sempre, só que agora o contexto é outro.
Maddy (Alexa Demie) aparece trabalhando com figuras públicas da moda em Hollywood. O estilo continua o mesmo; o cenário mudou.
Ali (Colman Domingo) continua sendo a âncora moral de Rue. Num jantar, ela demonstra interesse genuíno em religião — não como conversão, mas como busca de sentido num vácuo existencial que as drogas já não preenchem sozinhas. Ali escuta, pondera, não julga.
Jules não aparece no episódio — apenas é mencionada de passagem.
A recepção dividida: o que os números dizem
O primeiro episódio recebeu nota 6,8 no IMDb, a pior estreia de temporada da série. As duas anteriores chegaram a 8 e 9,1 respectivamente. No Rotten Tomatoes, o episódio ficou em 42% de aprovação.
As críticas se concentram em três pontos: a ausência da identidade visual que tornou Euphoria inconfundível, a impressão de que o elenco — especialmente Sydney Sweeney e Jacob Elordi, que viraram grandes estrelas de cinema nesse intervalo — parece pouco engajado, e um roteiro que prioriza situações chocantes em vez de construção de personagem.
Por outro lado, há quem defenda que o choque é o ponto. Que uma série sobre vício, trauma e consequências reais não poderia fingir que cinco anos não passaram. Que tirar os personagens do casulo do ensino médio e jogar no mundo adulto sem rede de proteção é exatamente o que a história pede.
Zendaya permanece como o argumento mais forte da série. Ela não economiza nada — nem na cena do deserto, nem no jantar com Ali, nem no momento final com Alamo. Rue continua sendo um dos personagens mais complexos da televisão recente, e isso se deve quase inteiramente à entrega da atriz.
O que esperar dos próximos episódios
Com oito episódios no total — o último previsto para 31 de maio —, a temporada tem espaço para desenvolver o que o episódio inaugural apenas esboçou.
A dívida com Laurie permanece. Alamo é uma nova variável de alto risco. A busca de Rue por significado espiritual pode se tornar um arco interessante ou uma distração, dependendo de para onde Levinson levar. Os outros personagens mal foram apresentados nesse primeiro capítulo.
“Ándale” funciona mais como abertura de jogo do que como história completa. E se tem uma coisa que Euphoria sempre soube fazer, é fazer o espectador querer saber o que vem a seguir — mesmo quando o que está na tela o incomoda.
Novos episódios toda domingo, às 22h, no HBO Max e HBO.
-Euphoria S03E01 — “Ándale” – Imagem do topo: Tec Mundo

