Por décadas, oncologistas repetiram a mesma frase aos pacientes com câncer de pâncreas metastático: “Temos quimioterapia, mas os resultados são limitados.” Em 1º de junho de 2026, essa frase perdeu parte de sua validade.
No maior congresso de oncologia do mundo, a sessão plenária da American Society of Clinical Oncology (ASCO), em Chicago, algo incomum aconteceu quando os dados do estudo RASolute 302 foram exibidos na tela: parte da plateia, composta por médicos e pesquisadores experientes, se levantou para aplaudir. Alguns choraram.
Rachna Shroff, chefe de hematologia e oncologia do Arizona Cancer Center e especialista em tumores gastrointestinais da ASCO, contou que estava no consultório quando recebeu o comunicado com os resultados preliminares. “Comecei a chorar na clínica”, ela disse publicamente. Não foi exagero emocional — foi a reação de quem conhece de perto o que significa um diagnóstico de câncer de pâncreas avançado.
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O inimigo mais difícil da oncologia
O adenocarcinoma ductal pancreático, forma mais comum do câncer de pâncreas, carrega uma estatística que os médicos conhecem de cor: menos de 3% dos pacientes com doença metastática chegam ao quinto ano após o diagnóstico. Para efeito de comparação, o câncer de mama metastático tem taxas de sobrevida em cinco anos superiores a 28%.
Parte desse abismo se explica pela biologia do tumor. Em mais de 90% dos casos, as células cancerígenas têm uma mutação no gene KRAS, responsável por produzir uma proteína que funciona como um acelerador permanentemente travado no fundo. A célula não para de crescer, não responde a sinais de parada, ignora os mecanismos normais de controle. Durante décadas, essa proteína foi considerada “indruggable” — impossível de atacar com medicamentos.
O problema não era falta de esforço. Era estrutura molecular. A proteína RAS mutante não tem um bolso de encaixe profundo como outros alvos farmacológicos. É lisa, compacta, difícil de segurar. Cientistas tentaram por quarenta anos e falharam repetidamente.
O que mudou
A empresa Revolution Medicines desenvolveu uma classe de moléculas que os pesquisadores chamam de inibidores RAS(ON) — compostos que se ligam à proteína quando ela está na forma ativa, o estado “ligado”, que é exatamente quando ela causa dano. O daraxonrasib é o primeiro representante dessa classe a chegar a um estudo de fase 3 no câncer de pâncreas.
O mecanismo importa para entender por que os resultados surpreenderam tanto. Drogas anteriores tentaram bloquear a proteína RAS indiretamente, atacando alvos ao redor. O daraxonrasib vai direto ao problema, travando a proteína na posição desligada mesmo quando ela carrega a mutação.
O estudo RASolute 302 seguiu o padrão mais rigoroso da medicina: randomizado, fase 3, multicêntrico, com 500 pacientes que tinham câncer de pâncreas metastático e já haviam tentado ao menos um regime de quimioterapia anterior sem sucesso. Metade recebeu daraxonrasib em comprimido, uma vez ao dia. A outra metade continuou com quimioterapia convencional — a escolha do médico entre quatro regimes padrão usados globalmente.
Os números que produziram aplausos de pé
A sobrevida global mediana no grupo que tomou daraxonrasib foi de 13,2 meses. No grupo de quimioterapia, foi de 6,7 meses. Quase o dobro.
O hazard ratio foi de 0,40 — o que significa, em termos práticos, uma redução de 60% no risco de morte para quem recebeu o medicamento. O valor de p foi menor que 0,0001, o que na estatística médica equivale a dizer que a chance de esse resultado ser coincidência é praticamente zero.
A sobrevida livre de progressão — tempo em que a doença ficou controlada sem avançar — também dobrou. O estudo atingiu todos os desfechos primários e secundários que havia se proposto a medir.
Brian Wolpin, diretor do Centro de Pesquisa em Câncer de Pâncreas do Dana-Farber Cancer Institute e professor na Harvard Medical School, foi o investigador principal. Quando apresentou os dados ao plenário, a reação da sala foi descrita por jornalistas presentes como algo que não tinham visto naquele espaço antes.
O que 13,2 meses representa na prática
Números de sobrevida em oncologia às vezes parecem abstratos. Vale colocar em perspectiva.
Antes do daraxonrasib, um paciente com câncer de pâncreas metastático que já havia feito quimioterapia de primeira linha e não respondia mais tinha poucas opções. A sobrevida mediana nesse cenário girava em torno de 6 meses, às vezes menos. Algumas alternativas de segunda linha chegavam a estender isso por algumas semanas. Nenhuma dobrou.
Os 13,2 meses são uma mediana — metade dos pacientes viveu mais que isso. E o medicamento é um comprimido tomado em casa, uma vez por dia, sem os efeitos dos ciclos de quimioterapia intravenosa no consultório.
Para um paciente que já passou por meses de tratamento agressivo, ter um período maior de vida com mais autonomia é clinicamente relevante de um jeito que os números não capturam completamente.
O que ainda não está resolvido

Honestidade exige equilíbrio. O daraxonrasib é um avanço expressivo para pacientes em segunda linha de tratamento — aqueles que já tentaram quimioterapia e não responderam. Ainda não está aprovado por nenhuma agência regulatória. A análise foi publicada no New England Journal of Medicine simultâneamente à apresentação no ASCO, o que é um sinal de peso científico, mas aprovação e disponibilidade são etapas diferentes.
Os estudos também estão avançando para testar o medicamento como tratamento de primeira linha, em combinação com quimioterapia. Os dados preliminares apresentados na reunião anual da American Association for Cancer Research (AACR), em abril de 2026, mostraram resultados também promissores nesse cenário, mas ainda sem a maturidade de uma fase 3 completa.
Custo e acesso são perguntas que a oncologia brasileira sempre precisa fazer. Medicamentos com esse perfil de inovação geralmente chegam ao mercado a preços altos e com timelines de aprovação e incorporação ao SUS que se estendem por anos. Para a maioria dos brasileiros com câncer de pâncreas, o caminho entre o anúncio em Chicago e o acesso real ainda é longo.
Por que isso importa além dos números
O câncer de pâncreas mata aproximadamente 12 mil brasileiros por ano. Na maioria dos casos, o diagnóstico chega tarde, quando o tumor já se espalhou. Não porque as pessoas ignoram sintomas — é porque o pâncreas não dói, não incha de forma palpável, não produz sinais visíveis até que o tumor esteja avançado.
Esse contexto faz do daraxonrasib algo além de um medicamento com bons dados clínicos. Ele representa a primeira vez que a mutação KRAS — presente em 90% dos tumores pancreáticos, perseguida por pesquisadores por quatro décadas — foi efetivamente atacada em escala clínica com resultado verificado em fase 3.
George Sledge, diretor médico da Caris Life Sciences, colocou assim: “KRAS sempre foi a grande baleia branca da oncologia. Sempre pensamos que, se houvesse uma maneira de desligar esse alvo, poderíamos tratar o incurável.”
O daraxonrasib não cura o câncer de pâncreas. Mas sugere que o incurável pode estar, finalmente, começando a ceder.
Fontes: estudo RASolute 302, apresentado na sessão plenária da ASCO 2026 e publicado simultaneamente no New England Journal of Medicine; comunicado oficial da Revolution Medicines; AJMC; ASCO Post; The Oncology News Central.
Imagem do topo: Band

