Mansão romana de 1.800 anos.Durante anos, a história circulou nos corredores do Liceo Scientifico Cavour como se fosse folclore adolescente: havia salas escondidas embaixo do ginásio. Estruturas antigas. Passagens que ninguém sabia ao certo onde terminavam. A maioria dos adultos ouvia, sorria e seguia em frente.
Até que alguns alunos decidiram verificar por conta própria.
- O Laser que Mapeou o Coliseu Vai Varrer o Museu do Ipiranga Metro a Metro
- O comprimido diário que fez médicos chorarem em Chicago — e o que ele significa para o câncer de pâncreas
A lenda que virou escavação arqueológica
O Liceo Scientifico Cavour fica a poucos quarteirões do Coliseu, no centro de Roma. É uma escola com mais de um século de história — o prédio foi erguido por missionários católicos no século XIX — e com o tipo de passado arquitetônico que qualquer europeu já aprendeu a naturalizar: paredes grossas, porões com cheiro de século passado, ângulos que não fazem sentido em planta.
Mas o que os estudantes descreviam ia além do esperado. Falavam de arcos. Tijolos com padrão diferente. Ambientes que claramente não faziam parte da construção original do colégio. Alguns chegaram a entrar nas áreas subterrâneas menos acessíveis do prédio — não por vandalismo, mas por aquela curiosidade específica de quem passa anos num lugar e começa a fazer perguntas que os adultos nunca fizeram.
Quando os relatos chegaram à professora Claudia Marino — que, além de dar aulas no Cavour, trabalha como arqueóloga — ela foi conferir. O que encontrou foi suficiente para acionar imediatamente a Superintendência Especial de Roma para Arqueologia, Belas Artes e Paisagem.
As escavações formais começaram em setembro de 2025.
O que estava embaixo do ginásio
A estrutura revelada pelos arqueólogos recebeu o nome de Domus Liceo Cavour. Trata-se de uma residência urbana datada de meados do século II d.C. — construída, portanto, por volta do ano 150, quando o Império Romano ainda estava no auge sob os imperadores da dinastia Antonina.
Não era qualquer residência.
Entre os elementos identificados nas escavações estão afrescos decorativos com motivos florais e figurativos, mosaicos produzidos com peças irregulares de grande formato — uma característica de obras encomendadas por famílias de alto poder aquisitivo — e detalhes em estuque nos tetos abobadados. A localização da propriedade, nas imediações do Coliseu, já sugeria por si só que seus ocupantes faziam parte da elite romana. Naquela área da cidade, terreno era prestígio.
O arqueólogo Filippo Coarelli, da Universidade de Perugia, que participou da apresentação pública da descoberta ao lado da professora Claudia Marino, indicou que a residência pode ter pertencido à família Umbrius, embora as informações sobre os antigos moradores ainda sejam escassas. A investigação sobre a identidade dos donos continua.

Camadas sobre camadas
Uma das coisas mais instigantes das escavações foi o que ficou entre os tijolos romanos e o piso do ginásio moderno: grafites.
Não pichações recentes. Registros do século XX — nomes, sobrenomes, datas e inscrições deixadas por pessoas que entraram nos túneis ao longo das décadas de 1920 a 1950, algumas delas marcadas com fuligem de isqueiro. Isso significa que o subsolo do Cavour foi explorado informalmente por pelo menos três gerações antes de qualquer arqueólogo ser chamado. O conhecimento existia — circulava entre alunos, ex-alunos, curiosos — mas nunca atravessou o limite informal que separa uma lenda de corredor de uma denúncia oficial.
Essa sobreposição temporal é, ela mesma, um achado arqueológico. Os especialistas pretendem analisar os grafites modernos como um registro histórico paralelo, um retrato de como aquele espaço foi usado e reinterpretado muito depois do fim da ocupação romana.
O que ainda está lá embaixo
A Domus Liceo Cavour é maior do que o que foi escavado até agora. A Superintendência de Roma confirma que a estrutura se estende além da área investigada, continuando sob outras partes do campus escolar e possivelmente sob edifícios vizinhos. As escavações realizadas até o momento revelaram apenas uma seção da residência.
Isso coloca o Liceo Cavour numa situação arquitetônica curiosa: a escola funciona literalmente por cima de uma mansão imperial que ainda não foi completamente mapeada. Cada sala de aula, cada corredor, cada quadra esportiva pode estar sobre algo que ainda não foi visto desde o século II.
As obras fazem parte do programa Caput Mundi, uma iniciativa de financiamento cultural italiano. Os próximos passos incluem ampliar as escavações e, eventualmente, abrir parte do sítio à visitação. Há um projeto em andamento para que os próprios estudantes do Cavour atuem como guias turísticos do espaço, o que fecharia de forma bastante elegante o ciclo que começou com as histórias que eles mesmos contavam nos corredores.
Por que essa descoberta importa além da arqueologia
Descobertas assim acontecem com relativa frequência na Itália — o solo de Roma é tão denso em arqueologia que obras de metrô precisam ser paralisadas rotineiramente para permitir escavações de emergência. Mas o caso do Liceo Cavour tem algo diferente: a cadeia que levou à descoberta partiu dos alunos.
Não de um georadar. Não de uma obra de infraestrutura. Não de uma revisão técnica do prédio.
Partiu de adolescentes que levaram a sério uma história que os adultos ao redor deles tratavam como fantasia. E de uma professora que, em vez de arquivar o relato, foi checar.
Essa sequência muda o papel que os estudantes ocupam na narrativa. Eles não são apenas testemunhas da descoberta ou futuros guias do sítio. Foram, literalmente, a origem dela. A curiosidade que é frequentemente enquadrada como indisciplina — entrar em áreas restritas, fazer perguntas que ninguém pediu — foi, nesse caso, o mecanismo que destrancou 1.800 anos de história enterrada sob um piso de academia.
A Domus Liceo Cavour vai continuar sendo escavada nos próximos anos. O que os arqueólogos vão encontrar nas seções ainda não investigadas é desconhecido. Mas o ponto de partida de tudo isso foi uma sala escura, um feixe de lanterna batendo em tijolos que não deveriam estar ali, e alunos que acharam que valia a pena contar o que tinham visto.
mansão romana de 1.800 anos – Imagem do topo: Space Money

