O Laser que Mapeou o Coliseu Vai Varrer o Museu do Ipiranga Metro a Metro

Existe um equipamento do tamanho de uma caixa de sapatos que consegue medir a distância entre si e qualquer superfície com precisão de milímetros, varrendo milhões de pontos por segundo. Ele foi usado recentemente para mapear as paredes do Coliseu de Roma — um edifício que tem quase dois mil anos e carrega séculos de rachaduras, remendos, umidade e intervenções mal documentadas. Agora, o mesmo equipamento e a mesma equipe vão cruzar o Atlântico para fazer o mesmo trabalho no Museu do Ipiranga.

O projeto foi apresentado pela professora Beatriz Kuhl, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, durante a FAPESP Week London, realizada em Londres entre 2 e 4 de junho de 2026. A previsão é que o escaneamento comece em julho.

Não se trata de uma ação de documentação isolada. O que está sendo construído aqui é algo mais estruturado: um sistema vivo de monitoramento que vai acompanhar o comportamento do edifício ao longo do tempo — e que pode mudar a forma como o Brasil cuida de seus patrimônios históricos.

O que o Laser Enxerga Que o Olho Não Vê

O escaneamento a laser 3D funciona emitindo feixes de luz que batem na superfície e voltam para o sensor. O tempo que esse retorno leva determina a distância com exatidão. Repetido milhões de vezes por segundo em todas as direções, o processo gera o que os pesquisadores chamam de nuvem de pontos — uma representação digital tridimensional de todo o espaço físico, de teto a piso, de fachada a corredor interno.

Mas o laser não mede só geometria. Ele também registra a reflectância de cada superfície — ou seja, a porcentagem de luz que volta ao sensor depois de atingir um material. Essa informação revela o que o olho humano não detecta: variações de umidade dentro de uma parede, presença de fungos ou mofo em estágio inicial, diferenças de composição entre materiais originais e camadas de restauro posterior. É por isso que essa tecnologia interessa tanto a quem trabalha com conservação preventiva: ela enxerga o problema antes que ele apareça na superfície.

No Coliseu, esse mesmo tipo de mapeamento foi usado para acompanhar as transformações estruturais do anfiteatro depois de intervenções de restauração. A comparação entre escaneamentos feitos em momentos diferentes mostra com precisão se uma fissura avançou, se uma área umedeceu, se um ponto crítico está se agravando ou se estabilizou.

Quem Vai Fazer o Trabalho

A execução técnica ficará a cargo do laboratório DIAPReM, da Universidade de Ferrara, na Itália. O nome é a sigla de Development of Integrated Automatic Procedures for Restoration of Monuments — um centro de pesquisa em atividade desde 1997, especializado em metodologias de levantamento geométrico e modelagem digital de patrimônio arquitetônico.

A equipe italiana não está chegando ao Museu do Ipiranga pela primeira vez. Antes das obras de restauração que mantiveram o museu fechado por quase uma década, o DIAPReM já havia feito um escaneamento completo do edifício. Isso é estratégico: significa que existe um registro preciso do estado anterior às obras, e o novo escaneamento vai gerar um segundo registro do estado pós-restauração. A comparação entre os dois vai revelar exatamente o que mudou — e o que não mudou da forma esperada.

A parceria entre o grupo italiano, pesquisadores da FAU-USP e o Centro de Preservação Cultural da USP já tem histórico concreto: a mesma equipe escaneou o edifício da FAU projetado por Vilanova Artigas e outros patrimônios pelo Brasil, como a Casa das Canoas de Oscar Niemeyer, no Rio de Janeiro, e a Casa de Vidro de Lina Bo Bardi, em São Paulo.

A professora Beatriz Kuhl resume por que a continuidade da mesma equipe importa: “Para ter dados de fato comparáveis, é fundamental utilizar a mesma metodologia e os mesmos pontos de referência. Dependendo de como o escaneamento é feito, podem surgir muitas imprecisões. Se for muito bem planejado e com alto grau de consistência, os resultados são precisos.”

O Que é o HBIM e Por Que Ele Muda o Jogo

O escaneamento em si é o primeiro passo. O destino dos dados é o que transforma o projeto em algo diferente de um simples levantamento fotográfico sofisticado.

A metodologia por trás do projeto se chama HBIM — Historic Building Information Modelling, ou Modelagem de Informação para Edifícios Históricos. Trata-se de um sistema digital que vai além do modelo 3D: ele integra a geometria física do edifício com informações sobre materiais, histórico de intervenções, registros de conservação, laudos técnicos e dados de monitoramento contínuo — tudo dentro de uma mesma plataforma.

A diferença prática em relação ao que existe hoje é significativa. Hoje, grande parte da gestão de patrimônios históricos no Brasil depende de documentação fragmentada: relatórios em papel, plantas desatualizadas, registros fotográficos sem padronização, memória institucional que se perde com a troca de equipes. O HBIM centraliza tudo isso em um ambiente consultável, rastreável e atualizável.

“A ideia é alimentar um sistema HBIM a partir de uma área piloto do museu de modo a permitir a gestão da informação para fins de conservação preventiva”, explicou Beatriz Kuhl à Agência FAPESP.

A conservação preventiva é justamente o oposto do que costuma acontecer com patrimônios públicos no Brasil: a intervenção emergencial, cara e traumática, que acontece depois que o dano já é visível. Com um HBIM alimentado por escaneamentos periódicos, é possível identificar pontos de risco antes da falha, planejar manutenções menores com antecedência e evitar que pequenos problemas se tornem crises que fecham museus por anos.

O Museu que Precisava Desse Projeto

Museu do Ipiranga
Museu do Ipiranga – Imagem: Folha UOL

O Museu do Ipiranga foi construído entre 1885 e 1890. Passou por uma das restaurações mais complexas e longas da história recente do patrimônio brasileiro — ficou fechado por quase dez anos — e reabriu ao público em setembro de 2022.

O encerramento prolongado não foi um acidente de percurso. Foi consequência de décadas de manutenção insuficiente, de um edifício que envelheceu sem que existissem ferramentas adequadas para monitorar esse envelhecimento com precisão. A restauração resolveu o que estava visível. O HBIM vai cuidar do que ainda não apareceu.

O escaneamento previsto para julho cobrirá o edifício inteiro: interior e exterior, fachadas, telhados, estrutura interna, ambientes expositivos. O modelo digital resultante vai documentar o museu no seu melhor estado dos últimos cem anos — e vai servir de base para todas as decisões de conservação pelos próximos.

O Que Isso Diz Sobre o Brasil

Existe uma diferença entre saber que um patrimônio precisa de cuidado e ter dados concretos que mostram onde, quanto e com que urgência esse cuidado é necessário. O Brasil historicamente operou no primeiro modo — o do cuidado intuitivo, reativo, dependente de verba emergencial e de vontade política de curto prazo.

O que o projeto do Museu do Ipiranga representa é uma mudança de lógica. Não se trata de uma tecnologia importada por ser nova ou impressionante. O Coliseu, que tem quase dois mil anos, usa essa metodologia porque ela funciona — porque a diferença entre um edifício monitorado com precisão e um edifício gerido no escuro é, frequentemente, a diferença entre uma manutenção planejada e uma reforma emergencial de dezenas de milhões de reais.

O fato de que esse sistema vai ser implementado agora, logo após a reabertura do Ipiranga, é o momento certo. O edifício está em seu ponto de partida mais documentado e mais bem conservado das últimas décadas. Qualquer variação detectada a partir daqui vai ter uma linha de base confiável com a qual se comparar.

O laser que mapeou o Coliseu vai fazer o mesmo pelo Museu do Ipiranga. E dessa vez, o Brasil vai ter os dados para acompanhar o que acontece depois.

Imagem do topo: Canção Nova

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