Por quase cinco séculos, o Krasheninnikov foi só uma montanha de 1.856 metros na costa do Pacífico, sem nenhuma erupção registrada desde cerca de 1550. Em agosto de 2025 isso acabou. Em 24 de setembro de 2026, a NASA divulgou o que o satélite NISAR enxergou desde então: um campo de lava que avança para leste, imagem após imagem, numa região da Rússia onde quase ninguém vive.
O material do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) reúne 17 quadros de radar, de dezembro de 2025 a meados de agosto de 2026. A seguir, o que aconteceu no vulcão, por que ele foi uma surpresa e o que essas imagens mudam na vigilância de vulcões pelo mundo.
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Onde fica o Krasheninnikov e por que ninguém esperava a erupção
O Krasheninnikov fica na península de Kamchatka, no extremo leste da Rússia, dentro da Reserva Natural de Kronotsky, a cerca de 200 km a nordeste de Petropavlovsk-Kamchatsky. Não é um cone isolado: são dois vulcões lado a lado, e a atividade atual vem do norte.
Kamchatka tem dezenas de vulcões, e boa parte deles recebe monitoramento no solo porque entra em erupção com frequência. O Krasheninnikov ficou fora dessa rotina. O Programa Global de Vulcanismo, do Instituto Smithsonian, registra a última erupção em 1550 e lista 31 erupções confirmadas desde o início do Holoceno, há cerca de 11.700 anos. Ele já foi ativo muitas vezes, mas o silêncio de séculos deixou o monitoramento em solo mais raso que o dos vizinhos. Na prática, um satélite acabou sendo a melhor testemunha.
Quase 500 anos, 475 ou 600? Por que os números divergem
A conta muda conforme a fonte. A equipe russa de resposta a erupções de Kamchatka, a KVERT, falou em 600 anos desde a última erupção histórica confirmada. O Smithsonian aponta 1550, o que dá 475 anos. A NASA escreveu “quase cinco séculos”. Os relatos da época não explicaram a diferença, então “quase 500 anos” é a formulação que cobre a divergência sem forçar nenhum dos lados.
Do terremoto de 8,8 à coluna de cinzas de 6 km
A sequência começou no mar. Em 30 de julho de 2025, um terremoto de magnitude 8,8 sacudiu a costa de Kamchatka, o sexto mais forte já medido. Cerca de quatro dias depois, por volta das 6h de 3 de agosto, a equipe científica e de segurança da reserva notou cinzas, vapor e gás saindo das encostas do Krasheninnikov. A coluna de cinzas subiu a 6 km de altura e a pluma andou para leste, rumo ao Pacífico.
O saldo, naquele momento, foi mais de susto do que de dano. A defesa civil de Kamchatka disse que não havia áreas habitadas no trajeto e que nenhuma cinza caíra sobre povoados. Um tremor de magnitude 7,0 acompanhou a erupção e provocou alerta de tsunami em três áreas da península, cancelado depois. Para a aviação, foi emitido alerta laranja.
A NASA diz que o terremoto aparentemente despertou um dos dois vulcões. Um vulcanólogo russo ouvido pela imprensa estatal também ligou os dois eventos de forma direta. O mecanismo exato, ou seja, como o abalo interferiu no sistema de magma sob o vulcão, ainda pede estudo.
O que o satélite NISAR mostrou entre dezembro de 2025 e agosto de 2026
O NISAR é uma missão conjunta da NASA e da agência espacial indiana, a ISRO. Ele orbita a 747 km de altitude e fez a primeira imagem do Krasheninnikov em 25 de dezembro de 2025, quando terminava as verificações pós-lançamento e entrava em operação. Desde então, volta ao mesmo ponto duas vezes a cada 12 dias: uma passagem de sul a norte e outra de norte a sul.
Os pesquisadores escolheram 17 quadros até meados de agosto de 2026 e montaram uma sequência. Ela mostra a lava enchendo uma caldeira interna menor, transbordando para uma cratera mais larga e se abrindo em leque, como galhos de uma trepadeira, na descrição da própria NASA. O campo de lava cresce para leste. O vídeo também revela um segundo fluxo, a noroeste, que provavelmente se formou antes da primeira imagem do satélite.
Segundo a NASA, o vulcão do norte vem despejando rocha derretida e detritos de forma constante desde o primeiro dia da erupção.

Como um radar enxerga lava através de neve e nuvens
O NISAR usa radar de abertura sintética, o SAR, técnica desenvolvida pelo JPL para observar a Terra do espaço. Enquanto o satélite se desloca, o radar emite milhares de pulsos de micro-ondas por segundo e recebe o retorno de cada um. O processamento junta essas leituras da mesma área e afia a imagem, como uma lente que tira o borrão de um objeto.
Cada pixel dos quadros do Krasheninnikov cobre 10 por 10 metros, cerca de metade de uma quadra de tênis. A lava aparece mais clara porque reflete as micro-ondas com mais intensidade que o entorno, que muda entre neve e solo nu ao longo do ano. Como o radar produz o próprio sinal, ele funciona à noite e atravessa nuvens, o que ajuda numa península de tempo instável.
O que isso muda no monitoramento de vulcões
O geofísico Matthew Pritchard, da Universidade Cornell, integra a equipe científica do NISAR e analisou os dados usados na animação. Para ele, o valor está na regularidade: duas aquisições a cada 12 dias, em alta resolução e em duas direções de observação. É esse ritmo que permite acompanhar um vulcão como quem lê uma série histórica, e não uma foto avulsa.
Pritchard estudou vulcões de Kamchatka no doutorado, há mais de 20 anos. Na época, dados de radar prontos para análise eram raros, porque os satélites passavam menos vezes e as imagens tinham resolução baixa. Hoje o NISAR cobre praticamente todos os cerca de 1.300 vulcões ativos acima do nível do mar, com detalhe na escala de poucos metros e acesso pela nuvem. Os dados da banda L ficam disponíveis no Alaska Satellite Facility, em Fairbanks.
A banda L é uma das duas do satélite, o primeiro a levar dois radares de comprimentos de onda diferentes. A antena em forma de tambor tem 12 metros de largura, a maior refletora de radar que a NASA já enviou ao espaço. A NASA aponta dois usos: pesquisa e, potencialmente, resposta a emergências.
O que ainda falta saber
O material da NASA cobre dados até meados de agosto de 2026 e não diz quando a erupção termina, nem se o fluxo de lava vai mudar de direção. Também não há, nas fontes consultadas, previsão de impacto em áreas habitadas: os relatos de 2025 descrevem uma região sem povoados no caminho da pluma. Para acompanhar a evolução, as fontes primárias são a KVERT, o Programa Global de Vulcanismo do Smithsonian e a página da missão NISAR, no site da NASA.
O caso também deixa uma pergunta em aberto para vulcanólogos: quantos outros vulcões considerados adormecidos estão só esperando um gatilho? O Krasheninnikov não responde isso sozinho, mas mostra que silêncio de séculos não garante que o sistema esteja apagado.
Imagem do topo: Euro news


